sábado, 11 de outubro de 2014

#papocabeça - O que é essa tal de secularização?


Todo cristão que se preze já deve ter ouvido este "palavrão", geralmente inserido num discurso de advertência e acompanhado de uma expressão de desaprovação: "a secularização da igreja", "a música secular", "o secularismo"... Mas, afinal, qual a origem deste conceito, e porque ele é tão mal visto no meio religioso?

A palavra secularização é oriunda do latim saeculum que significa ‘século’, ‘época’. Com o tempo, adquiriu outros significados como: ‘o mundo’, ‘a vida do mundo’ e ‘o espírito do mundo’. Mas a maneira como a igreja lida com o conceito não tem o mesmo sentido dado pelos estudiosos de fora do meio eclesiástico. Para os crentes o termo foi difundido com um sentido negativo, como algo mundano, hedonista. Já os pensadores em geral vêm a secularização apenas como um fenômeno sociológico neutro que merece ser estudado. Para entender porque secularização adquire o seu sentido pejorativo, é preciso primeiro que a gente pare de avaliá-lo sob o olhar da religião, e o observe a partir de outro ponto de vista: o da sociologia.

Os sociólogos apontam para uma evolução histórica da religião na sociedade, desde as práticas místicas e rudimentares do homem primitivo até o surgimento das atuais instituições religiosas extremamente desenvolvidas e organizadas. Para eles, a secularização é a melhor explicação para essa transformação progressiva da religião. A secularização se define como uma aproximação cada vez maior dos fenômenos religiosos com as práticas laicas, gerando uma adaptação do sagrado (religião) aos valores profanos (do mundo). Segundo o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), “a ação religiosa (...) em sua existência primordial, está orientada para este mundo.” A sua obra Sociologia da Religião traz várias características desta gradativa adaptação do sagrado ao profano/mundano. Aqui algumas delas:

1) a simbolização: passagem de uma adoração da natureza para uma crença simbólica em seres espirituais;
2) a antropomorfização: atribuição de características e competências humanas aos seres espirituais;
3) a categorização: classificação das divindades (deuses ou demônios, deuses ligados a profissões, a cidades, a fenômenos naturais, a clãs, etc.);
4) a universalização: o aparecimento das grandes religiões monoteístas, substituindo aquele panteão de divindades por um deus único e universal;
5) a abstração: concepção de ideias religiosas complexas, como um "deus transcendente", o "pecado" e a "salvação";
6) a sistematização: utilização das dos escritos religiosos como forma de preservar as revelações e tradições que até então eram transmitidas de forma oral;
7) a racionalização: desenvolvimento do pensamento filosófica na religião (teologia) e de uma doutrina religiosa organizada, lógica e coerente;
8) a institucionalização: passagem do culto doméstico para uma adoração em congregações, garantindo a continuidade da religião;
9) a hierarquização: o aparecimento das figuras do mago, do profeta e do sacerdote, entre outras funções, como formas oficiais de administrar o sagrado;
10) a burocratização: estabelecimento da instituição religiosa, com suas hierarquias, suas regras, seus cargos, sua oficialidade...

Enfim, podemos perceber através destas características que a secularização (pelo menos no início) promove não a destruição, mas a evolução da religião de um estágio mais primitivo para um nível cada vez mais avançado. Mas a secularização não atua apenas no desenvolvimento da religião: ela também é responsável pela modernização da própria sociedade. Para Weber, religião e modernidade não são opostos nem incompatíveis, pois foi a secularização da religião que contribuiu para o surgimento da modernidade. Quando há uma transformação de pensamento religioso ocorre também uma alteração nas práticas seculares. Deste modo, a secularização é um fenômeno que nasce dentro do pensamento religioso, mas que atua também fora dele: no desenvolvimento das cosmovisões (visões de mundo), das instituições sociais, do direito e da moral, da racionalidade da ciência, ou mesmo de um novo sistema econômico.


Mas, é claro, não há dúvida de que, com a secularização, a religião perdeu cada vez mais sua legitimidade nos tempos modernos. Se, por um lado, a religião é cada vez mais voltada para este mundo, por outro lado, o mundo está cada vez mais afastado da religião. Ou seja, a religião desempenhou papel decisivo para a o surgimento da modernidade, mas depois este mesmo progresso tirou o lugar de destaque da religião na sociedade. É o que Weber chama de “desencantamento do mundo”, quando a racionalidade moderna põe em xeque as visões religiosas e místicas tradicionais.

Com o desenvolvimento da modernidade, a separação sagrado/profano, religioso/secular, divino/mundano foi ficando cada vez mais forte. A religião ficou restrita ao espaço pessoal e privado, enquanto que a política ocuparia o centro da vida social, pública. A secularização originou um luta do campo religioso contra campos concorrentes que exercem controle (mídia, política, escola, entretenimento, ciência, cultura, etc.). Na atual sociedade secular, ninguém pauta sua vida somente pela religião, nenhuma explicação meramente religiosa é levada a sério, e nada mais é exclusivamente sagrado. É daí que vem esse sentido negativo que hoje acompanha a palavra secularização.

Três fenômenos são característicos do fim do monopólio da religião nas sociedades secularizadas. O primeiro é a diversidade religiosa, quando não existe mais uma religião absoluta, capaz de impor às demais religiões e a toda a sociedade seus valores. Funciona a lógica de mercado econômico, em que as religiões são oferecidas como produtos e competem entre si para cativar a clientela. Também há a tendência ao relativismo religioso, demarcando a religião num domínio particular, íntimo, emocional e subjetivo, considerando-a incapaz de interferir nas decisões em sociedade. E, por fim, a liberdade religiosa, que confere uma liberdade de escolha ao indivíduo, além da liberdade institucional de formação de novos grupos e movimentos.


“A secularização do mundo moderno representa, portanto, a afirmação da autonomia criadora do homem, o predomínio da razão antropocêntrica.” (ARAÚJO)

Antes, no entanto, de declararmos aqui a derrota da religião no mundo secular, é preciso saber que essa oposição radical entre o religião/fé e modernidade/razão é algo totalmente discutível. A secularização provoca reações diversas: de um lado estão os que creem no fim do sagrado nesta cultura radicalmente secularizada, e de outro os que acreditam na revanche da religião num mundo totalmente esgotado pela falta de fé. Estes movimentos com visões opostas unem-se em uma só constatação: ao que tudo indica, religião (encantamento) e secularização (desencantamento) não são excludentes. Isso nos leva a algumas questões:

* É realmente possível que a religião seja totalmente pura, sagrada e separada do mundo, tendo em vista a força da secularização?
* Por outro lado, até que ponto a religião pode adaptar-se ao mundo sem perder sua força, primazia e essência?
* Como a religião tem sobrevivido no mundo moderno e secularizado? Ela permanece intacta ou tem sofrido alguma transformação?

Reflita a respeito... e deixe um comentário aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fontes: 

ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. Religião e Modernidade em Habermas. São Paulo, Edições Loyola. 1996.

FIGUEREDO FILHO, Valdemar. Entre o Palanque e o Púlpito: Mídia, Religião e Política. São. Paulo: Annablume, 2005.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia e Poder Simbólico. São Paulo: Paulus, 2005.

WEBER, Max. Sociologia da Religião. In: Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva, v. 1. Brasília: UNB, 2000.

sábado, 27 de setembro de 2014

#papocabeça - O que a moral tem a ver com a religião?


“A moral deixaria de ser moral, caso não contivesse mais nenhum elemento religioso.” Essa frase tão impactante parece até que veio de um tratado bíblico de algum teólogo, de uma declaração doutrinária de alguma igreja, de uma pregação expositiva de algum pastor... Mas não é nada disto que você está pensando! Esta frase é simplesmente a conclusão a que chegou o respeitado pensador Émile Durkheim sobre o fundamento divino da moralidade humana. Trata-se de uma análise totalmente sociológica e filosófica, não tem nada de teologia ou misticismo! Ou seja, ele buscou esclarecer a religião a partir de fatores fora dela, dando explicações que poderiam ser entendidas por todas as pessoas, fossem elas religiosas ou não.

Nós cristãos entendemos e aceitamos que a moralidade (conjunto de regras que orientam o comportamento humano) e a consciência (noção das próprias ações e deveres) vêm de Deus porque a bíblia nos diz que é assim, e porque ela é para nós a regra da vida prática. Mas e se alguém que não acredita em Deus te pedisse uma explicação bem convincente para a moralidade humana sem usar a bíblia? Durkheim fez justamente isto, investigou profundamente as raízes da moral, e qual não foi a surpresa: ele encontrou o alicerce justamente no mesmo lugar em que já estava posto: no sagrado, na fé, no divino, na religião! Vou tentar ser o mais clara possível, pra que todos possam entender a grande conclusão dele.

Durkheim (1858-1917) foi o primeiro sociólogo a criar métodos na sociologia, sendo "As formas elementares da vida religiosa" uma de suas obras mais importantes. Ele propõe o conceito de “consciência coletiva” como sendo uma espécie de alma da sociedade, a identidade de um grupo, e que seria um protótipo da moralidade, da ética e do direito como conhecemos hoje. "Consciência coletiva" seria como uma grande “pessoa coletiva”, constituída pelas consciências particulares de cada um dos seres humanos, de tal maneira que esse “espírito de coletividade” é bem maior (transcendente) que as consciências individuais, mas, ao mesmo tempo, permanece dentro da consciência de cada um dos indivíduos (imanente).

Para Durkheim, a fé religiosa não é uma simples atitude divina e sobrenatural, mas é uma expressão desta “consciência coletiva”. A fé, no entendimento sociológico dele, é um conjunto de símbolos que servem para a comunicação e que podem agrupar as pessoas em torno de um propósito comum e promover um consenso na comunidade. É o que nós cristãos entendemos como comunhão em torno da mesma crença. Para compreender como Durkheim chega a estas raízes sagradas da autoridade moral, é preciso acompanhar a sua demonstração das semelhanças entre moralidade (1) e religião (2).

De acordo com a sua lógica de raciocínio, a moralidade (1) têm duas características principais:
1a) caráter impessoal da autoridade moral
1b) ambivalência de sentimentos provocada no indivíduo

Calma que eu vou explicar!


O que é impessoalidade da autoridade moral (1a)? Ele quer indicar com este conceito que as regras morais são dotadas de uma autoridade especial, que faz com que elas sejam obedecidas por nós automaticamente. Ou seja, nós não obedecemos uma norma ou lei porque a avaliamos detalhadamente e chegamos à conclusão racional de que ela é realmente boa e, por isso, deve ser seguida. Não, pelo contrário, as leis são obedecidas pelo simples fato de ordenarem algo, simplesmente por serem leis e pronto. Nós internalizamos esses comportamentos generalizados de uma sociedade como sendo exigências morais, e passamos a cumpri-las quase mecanicamente, simplesmente pelo seu caráter obrigatório.

E essa tal de ambivalência de sentimentos (1b)? Ele refere-se a dois sentimentos ambíguos que brotam na gente no momento em que cumprimos uma regra moral. São como duas forças opostas coexistindo e cooperando na formação da obrigação moral: uma força de coação e uma força de atração. A força de coação é aquela que nos leva a cumprir uma lei pelo medo, ou seja, agimos moralmente por submissão e temor a uma autoridade que impõe respeito por estar tanto "acima de nós" como, ao mesmo tempo, "interna a nós". Por outro lado, há também a força de atração, que nos conduz à obediência também por reconhecer que na lei há algo de desejável, ou seja, agimos moralmente por reconhecer que o bem é digno de ser buscado, que é um ideal a ser almejado, que traz alguma satisfação pessoal, que desperta em nós uma vontade de segui-lo com zelo e entusiasmo. Portanto, a "obrigatoriedade" e “desejabilidade” são dois sentimentos ambivalentes, duas faces da mesma moeda da moralidade.

Sim, e o que isto tem a ver com a religião? Este é o ponto! Durkheim vê essas duas características acima da moralidade como semelhantes a outras duas características da religião (2), que são:
2a) delimitação dos domínios sagrado e profano
2b) atitude ambivalente do sagrado

Vamos lá explicar essas duas características!


Primeiro, pra entender essa separação entre sagrado e profano (2a), é preciso saber o significado desses dois domínios tão diferentes. Durkheim diz que “O sagrado tem a ver com aquilo que é individualizado, separado. Ele se caracteriza pelo fato de não se misturar com o profano. Caso viesse a acontecer, ele deixaria de ser o que é. Qualquer mistura, o menor toque, tem como consequência sua profanação.” (Note que é igualzinho ao conceito teológico de "santo", que quer dizer algo "separado" do mundo e para Deus). Pois é, e olhe só: esta atitude de respeito para com o sagrado é semelhante ao que acabamos de ver com relação à obediência meio que automática à autoridade moral. O crente também assume certos comportamentos quando entra em comunhão com a comunidade religiosa, de modo que internaliza os preceitos religiosos, e passa a cumpri-los quase automaticamente, simplesmente pelo seu caráter de "ordem divina" e "mandamento".

No aspecto da ambivalência do sagrado (2b), também percebemos a mesma coexistência das duas forças opostas que já identificamos acima em relação às normas morais: uma força que impele e uma força que atrai. O sagrado desperta esses dois sentimentos ambíguos no indivíduo: “a aura que atrai e encanta e ao mesmo tempo que assusta e aterroriza.” O ser divino (Deus) é tanto um ser proibido, respeitado e temido, mas também que é bom, amado, desejado. Como entende Durkheim, "o objeto sagrado nos inspira, senão o temor, pelo menos um respeito de que ele nos isola, que nos mantem a distância; e ao mesmo tempo, ele é objeto de amor e de desejo; nós tendemos a nos aproximar dele.”

***

Enfim! Se formos transformar essas ideias numa equação chegaríamos à conclusão que:
Se 1a = 2a (impessoalidade da autoridade moral = delimitação entre sagrado e profano)
e 1b = 2b (ambivalência de sentimentos da moral = ambivalência do sagrado),
então 1 = 2 (moralidade = religião).

Trocando em miúdos: Durkheim enxerga que a moralidade é similar à religião por ambas carregarem características em comum (aqui apresentamos duas principais). A moral preserva o conteúdo da religião mesmo que abandone a forma religiosa. "As analogias estruturais entre o sagrado e a moral levam Durkheim a concluir pela existência de uma base sagrada da moral. [...] As regras morais extraem sua força vinculante da esfera do sagrado."

Este texto é apenas uma reflexão sobre uma pequena parte da teoria de Durkheim. Não tem o objetivo de ser um ensaio exaustivo sobre o tema, nem esgotar toda a verdade sobre a relação entre moral e religião. Mas a partir desta pequena análise podemos enxergar como moral e religião têm tudo a ver, e também compreender como funciona a nossa sociedade atual, em que cada vez mais questões religiosas influenciam discussões jurídicas, princípios éticos e até decisões políticas (a força da pauta religiosa nas eleições é um bom exemplo disto). Isto nos leva a algumas questões:

* A moralidade pode ser considerada como um argumento convincente para provar a existência de Deus? 
* Todo homem tem uma consciência religiosa mesmo que se afirme ateu ou não religioso? 
* Será que realmente religião e política (direito, justiça, ética) estão, ou deveriam estar, separados?

Reflitam a respeito... e comentem aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fonte: HABERMAS, Jürgen. A Autoridade do Sagrado e o pano de fundo do Agir Comunicativo. In: Teoria do Agir Comunicativo 2: sobre a crítica da razão funcionalista. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

domingo, 7 de setembro de 2014

#papocabeça - É errado "discutir religiosamente"?



Hoje li num texto: "Há evangélicos que não perdem tempo em discutir religiosamente a sexualidade, o aborto, as drogas; estes evangélicos estão mais preocupados em aceitar... "

É claro, tem coisas que não dá pra gente impor ou evitar, que acontecem e que vão piorar mais ainda. Mas mesmo que não tenhamos a liberdade de interferir na liberdade do outro, nós precisamos exigir pelo menos a nossa liberdade de discordar - e manter essa postura de quem não concorda com certas coisas, mas tolera.

"Discutir religiosamente" não é perda de tempo, nunca! Só é preciso ter moderação quando vem a interferir na legislação da vida em sociedade - estado laico (nesse caso, além de perda de tempo, não tem nada a ver!) Os padrões e valores da sociedade são outros e não posso querer que todos sigam a Bíblia à força. Pelo contrário, devo dar liberdade para que as pessoas, voluntariamente, ouçam a verdade, busquem a Deus e corrijam suas vidas pessoais (a salvação é individual, e não "Essa nação é do Senhor Jesus!").

Fora isso, religião tem que ser discutida, sim, nos nossos relacionamentos com os outros (principalmente!), porque pra o cristão a fé norteia tudo, e faz parte da sua própria identidade. Se não podemos falar do que acreditamos e do que somos, pra que essa liberdade então?

Querem afirmação e aceitação das identidades hoje em dia? Pois bem! Sou cristã, preocupe-se em me aceitar como sou, e não em discutir "secularmente" minha religião/estilo de vida!


Em Cristo,

Débora Silva Costa

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em quem o cristão deve votar?

Em tempo de eleição essa é uma das dúvidas mais comuns em nossas igrejas. Isto porque, irmãos em Cristo que temem ao Senhor e que desejam fazer o melhor para o seu país, acreditam que os seus pastores receberam de Deus orientações claras quanto àqueles que deverão governar a nação. Nesta perspectiva, buscam em seus líderes orientações em quem votar. No entanto, o que talvez muitos não saibam, é que do ponto de vista ético e cristão, o pastor não possui o direito de manipular o voto de ninguém. Todavia, em virtude de desejos escusos, alguns pastores inescrupulosos, imbuídos de messianismo politico fajuto, enganam o povo, determinando ao rebanho o nome daqueles que deverão ser votados.

Caro leitor, como disse anteriormente, não creio na manipulação religiosa em nome de Deus, não acredito num messianismo onde a utopia de um mundo perfeito se constrói a partir do momento em que crentes são eleitos, nem tampouco comercializo o rebanho de Cristo, vendendo-o por interesses escusos a políticos inescrupulosos.

Diante do exposto gostaria de reproduzir aqui o DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO que foi defendido na década de 90 pela Associação Evangélica Brasileira:

I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;

V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um "despachante" de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros "trocos", ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais "acertos" impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a "recompensa" seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os "reinos deste mundo" por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de "boatos" do tipo: "O candidato tal é ateu"; ou: "O fulano vai fechar as igrejas"; ou: "O sicrano não vai dar nada para os evangélicos"; ou ainda: "O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos". É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: "o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto", é compreensível que dê um "voto de confiança" a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.


Soli Deo Gloria,

Renato Vargens


Original: QUEM FOI MESMO AQUELE QUE DEUS DISSE EM QUEM DEVEMOS VOTAR?

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de internet e novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem anterior eu trouxe a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na postagem de hoje teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - A PRÁTICA DO DISCERNIMENTO

Seria um erro supor que as guerras contra Harry Potter representaram uma luta de todos os cristãos conservadores contra educadores liberais e fãs. Enquanto alguns querem simplesmente reintroduzir as autoridades antigas e fortalecer as instituições que estão sendo desafiadas por essa cultura mais participativa, outros querem ajudar as crianças a aprender a fazer julgamentos sobre o conteúdo de mídia. Muitos grupos cristãos defenderam os livros, apresentando o conceito de "discernimento" como uma alternativa ao discurso da guerra cultural. 

Connie Neal, autora de "What's a Christian to do with Harry Potter?" (em português, "Os segredos espirituais de Harry Potter"), imaginou essa alternativa como a "construção de um muro" para proteger as crianças de influências externas ou uma "blindagem", de modo que elas possam trazer os seus próprios valores quando se deparam com a cultura popular. Neal observa que "restringir a liberdade pode incitar a curiosidade e rebeldia, levando aquele que você pretende proteger a ultrapassar a barreira de proteção para ver o que o que está perdendo... Mesmo se fosse possível manter as crianças separadas de todas as influências potencialmente perigosas, isso as impediria de enfrentar situações onde poderiam desenvolver a maturidade para evitar esses perigos sozinhas." Em vez disso, Neal defende que é preciso dar às crianças habilidades de letramento midiático, ensinando-lhes a avaliar e interpretar a cultura popular dentro de um contexto cristão. 

Um dos grupos de discernimento, Ransom Fellowship, define o discernimento como "a capacidade, pela graça de Deus, de traçar criativamente um caminho honrado em meio ao labirinto de escolhas e opções com as quais nos deparamos, mesmo quando estamos diante de situações e questões que não são especificamente mencionadas nas Escrituras." O movimento do discernimento inspira-se em uma série de passagens bíblicas que falam de pessoas que mantiveram sua fé, mesmo quando viviam em uma terra estrangeira. O movimento argumenta que os cristãos estão vivendo em um "cativeiro moderno," mantendo e transmitindo a sua fé num contexto cada vez mais hostil. 

Em "Pop Culture: Why Bother?" ("Cultura Pop: Por que se preocupar?"), Denis Haack, o fundador e diretor do Ransom Fellowship, argumenta que o envolvimento coma cultura popular, em vez do distanciamento, tem benefícios importantes. Exercícios de discernimento podem ajudar os cristãos a desenvolver uma maior compreensão do seu próprio sistema de valores, podem fornecer insights sobre a visão de mundo dos "não crentes", e pode oferecer uma oportunidade significativa para troca entre cristãos e não-cristãos. De acordo com Haack, "Se quisermos compreender aqueles que não compartilham nossas convicções mais profundas, devemos tentar compreender aquilo em que eles acreditam, porque eles acreditam, e como essas crenças operam na vida cotidiana." 

O site do grupo fornece argumentos e conselhos sobre como estimular o letramento midiático dentro de um contexto explicitamente religioso, encontrando ideias que valem a pena ser discutidas em obras comerciais como tão diversas como "Bruce Almighty" ("Todo Poderoso", 2003), "Cold Mountain" (2003), e Lord of the Rings ("Senhor dos Anéis", 2001) (...) O site é muito explícito quanto às eventuais discordâncias entre os próprios cristãos a respeito do que vale ou não a pena considerar nessas obras, mas acrescenta que o processo de discussão sobre as diferenças concentra a energia em assuntos espirituais e ajuda a todos os envolvidos para se tornarem mais hábeis em aplicar e defender sua fé. 

Enquanto alguns conservadores culturais interpretam a imersividade na cultura popular contemporânea como uma armadilha que enreda os jovens em um perigoso mundo de fantasias, outros dentro do movimento do discernimento têm promovido o uso de jogos de interpretação e de computador como espaços para explorar e debater questões morais. 
(...) 
Muitos líderes do movimento discernimento enaltecem menos os aspectos "nerds e esquisitos" da cultura popular, mas reconhecem o valor da apropriação e reavaliação de obras da cultura popular. Muitos defensores do discernimento consideram os livros de Harry Potter como a oportunidade perfeita para os pais conversarem com seus filhos sobre os desafios de preservar seus valores em uma sociedade secular. Haack explica: 

"A verdade é ensinada aqui, verdade que vale a pena ser refletida e discutida, e, embora seja ensinada em um mundo imaginário, ela se aplica à realidade também... O mundo em que Harry Potter vive é um mundo de ordem moral, onde as ideias e escolhas têm conseqüências, onde o bem e o mal são claramente distintos, onde o mal é igualmente desumano e destrutivo, e onde a morte é dolorosamente real .... Mesmo se tudo o que os críticos dizem fosse verdade, a atitude defensiva de suas recomendações é francamente constrangedora. Se os livros de Harry Potter fossem uma introdução ao ocultismo, a igreja deveria aproveitar a oportunidade para lê-los e discuti-los. O neopaganismo é uma realidade crescente neste mundo pós-cristão, e as nossas crianças precisam ser capazes de enfrentar esse desafio com serena confiança no Evangelho. Elas precisam saber a diferença entre a literatura de fantasia e ocultismo. E precisam ver os mais velhos agindo com integridade, e não com escândalo."
(...) 
Connie Neal pede aos pais cristãos que considerem o que Jesus faria se confrontado com essas histórias: 

"Jesus talvez lesse as histórias de Harry Potter e as usasse como pontos de partida para suas parábola... Assim como Jesus deu atenção às necessidades físicas dos outros, ele talvez desse atenção às necessidades terrenas reveladas nas vidas daqueles que se identificam com os personagens de Harry Potter. Ele talvez conversasse sobre Harry Potter e ouvisse as coisas com as quais eles mais se identificam: negligência, pobreza, discriminação, abuso, medos, sonhos, as pressões para se ajustarem, o desejo de realizar algo na vida, ou o stress da escola. Então ele iria mostrar-lhes como lidar com tais aspectos reais de suas vidas."


Ao invés de proibir conteúdos que não se ajustam completamente à sua visão de mundo, o movimento do discernimento ensina às crianças e aos pais como ler esses livros de forma crítica, como atribuir-lhes novos significados, e como usá-los como pontos de acesso a perspectivas espirituais alternativas. 

Em vez de bloquear a intertextualidade, que é tão profusa na era de narrativa transmídia, Neal, Haack, e outros líderes do discernimento estão procurando maneiras de aproveitar a força da intertextualidade. Eles fornecem listas de leitura para os pais que querem utilizar o interesse de seus filhos em Harry Potter como um ponto de acesso à fantasia cristã. Vários grupos de discernimento publicaram guias de estudo para acompanhar os livros e os filmes de Harry Potter, com "perguntas de sondagem", destinadas a explorar as escolhas morais feitas pelos personagens, complementadas com versículos bíblicos que sugerem como as mesmas decisões são enfrentadas dentro da tradição cristã. Os guias salientam, por exemplo, o momento em que a mãe de Harry sacrifica a vida para protegê-lo como um modelo positivo de amor cristão, ou apontam as escolhas morais deturpadas, que levaram à criação da Pedra Filosofal, como um exemplo de pecado. Enquanto os cristãos anti-Harry Potter querem proteger as crianças contra a exposição a esses livros perigosos, o movimento do discernimento enfatiza a ação dos consumidores para se apropriar e transformar o conteúdo de mídia.


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (1): teorias da conspiração


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem de hoje trago a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na próxima postagem teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO
Mais do que qualquer outro livro nos últimos anos, os livros de Harry Potter estiveram no centro de polêmicas envolvendo livros e bibliotecas. Em 2002, eles foram alvos de mais de 500 “contestações” em escolas e bibliotecas de todo o país (Estados Unidos). Em Lawrence, Kansas, por exemplo, a biblioteca pública de Oskaloosa foi obrigada a cancelar os planos de uma “aula especial de Hogwarts” para “jovens aspirantes a bruxas e magos” porque os pais da comunidade pensaram que a biblioteca estava tentando recrutar crianças para adorar o diabo. 
(...) 
Em Alamogordo, Novo México, a Igreja Comunidade de Cristo (Christ Cummunity Church) queimou mais de 30 livros de Harry Potter, além de DVDs de Branca de Neve e os Sete anões (1937), da Disney, CDs do Eminem e romances de Stephen King. Jack Brock, o pastor da igreja, justificou a queima de livros alegando que Harry Potter, livro que admitiu não ter lido, era “uma obra-prima de artimanha demoníaca” e um manual de instruções para a arte das trevas. (...) Outro pastor, reverendo Lori Jo Scheppers, afirmou que as crianças expostas a Harry Potter teriam “uma boa chance de se tornarem como aqueles garotos de Columbine”. 
(...)
O evangelista Phil Arms, por exemplo, descreve Harry Potter e Pokémon (1998) como “atrações fatais”, atraindo crianças para o mundo das ciências ocultas: “mais cedo ou mais tarde todos os que entram no mundo de Harry Potter devem enfrentar a verdadeira face por trás do véu. E quando o fazem, descobrem o que todos aqueles que brincam com o mal descobrem, ou seja, embora talvez só estivessem brincando, o Diabo sempre joga pra valer.” Os reformadores morais citam  o exemplo das crianças que se vestem como Harry Potter, usam chapéu de bruxo para imitar o ritual de iniciação do livro ou desenham raios na testa para reproduzir a cicatriz de Harry, como prova de que eles não estão apenas lendo os livros, mas começando a participar de atividades de ocultismo. 
(...)
Phil Arms e seus aliados temem que a imersão em universos ficcionais possa tornar-se uma forma de "projeção astral", ou que, quando proferimos palavras mágicas, as forças demoníacas que invocamos não percebem, necessariamente, que estamos apenas fingindo. Esses críticos conservadores advertem que as experiências atraentes da cultura popular podem se sobrepor a experiências do mundo real até que as crianças já não possam mais distinguir entre fato e fantasia. Para alguns, este nível de envolvimento é o suficiente para colocar os livros de Harry Potter sob suspeita: “Esses livros são lidos repetidamente por crianças da mesma maneira que a Bíblia deveria ser lida.” 
(...)
Outro evangelista, Berit Kjos, nos adverte: "O principal produto comercializado através deste filme é um sistema de crença que entra em choque com tudo o que Deus nos oferece para a nossa paz e segurança. Esta ideologia pagã se completa com figurinhas, jogos de computador, roupas e enfeites estampados com os símbolos de Harry Potter, action figures, bonecas fofinhas e fitas de áudio que podem manter a mente das crianças concentrada nas ciências ocultas o dia inteiro. Mas aos olhos de Deus, essa parafernália se torna pouco mais do que uma armadilha, uma porta de entrada para um envolvimento mais profundo com o ocultismo."

Eles afirmam ainda que Rowling faz mais de sessenta referências específicas nos quatro primeiros livros a práticas reais de ocultismo e à pessoas ligadas à história da alquimia e bruxaria. (...) Alguns críticos fundamentalistas (fundamentalismo é um rótulo controverso, mas manteremos aqui para reproduzir com exatidão o pensamento original do autor) interpretam o raio na testa de Harry como a "marca da besta", ou descrevem Voldemort como "aquele sem nome", um bruxo anticristo, ambos profetizados no livro Apocalipse. Eles alegam que as crianças que procuram informações adicionais serão atraídos para obras pagãs que prometem mais conhecimento e poder. 
(...)
Alguns ativistas encaram os livros como um enfraquecimento da influência cristã na cultura, em favor de um novo espiritualismo global. Kjos alerta que "os livros de Harry Potter não seriam socialmente aceitos há 50 anos. O clima cultural atual - tolerante com o entretenimento ocultista e intolerante com o cristianismo bíblico - foi planejado um século atrás." (...) Para alcançar um mercado global, afirmam os críticos cristãos, o capitalismo americano deve remover os últimos vestígios da tradição judaico-cristã e, para promover o consumismo, deve destruir toda a resistência à tentação. Aspectos da fé pagã e da fé oriental estão entrando salas de aula de uma forma secularizada (...) enquanto o cristianismo permanece bloqueado é excluído pelos defensores da separação entre igreja e estado. Como consequência os livros de Harry Potter terão efeitos muito diversos dos de, digamos, O Mágico de Oz (1900), lido pelas crianças dentro de uma cultura profundamente cristã. 
(...) 
Tentando conseguir apoio público, (educadores) criaram uma organização, "Trouxas de Harry Potter" (Muggles for Harry Potter), o que iria atrair o interesse nacional e internacional dos fãs. 
(...) O grupo ficou conhecido por conter as tentativas nacionais dos fundamentalistas de proibir os livros nas escolas. (...) A organização procurou ensinar jovens leitores dos livros de Harry Potter sobre a importância de defender a liberdade de expressão. A organização, que mais tarde mudou seu nome para kid-SPEAK!, criou fóruns online onde as crianças  poderiam compartilhar suas opiniões com os outros sobre esta e outras questões de censura. Por exemplo, Jaclyn uma estudante da sétima série, escreveu esta resposta à notícia de que um ministro fundamentalista tinha picotado cópias de Harry Potter quando os bombeiros se recusaram a conceder-lhe uma licença para ter queimar os livros: 

"Reverendo Taylor, anfitrião da Jesus Party, deveria analisar melhor antes de julgar. As crianças estão lendo esses livros e descobrir que há mais coisas na vida do que ir à escola. O que eles estão descobrindo, exatamente? Sua imaginação. O Reverendo Doug Taylor percebe o que está fazendo? As crianças estão lutando por seus direitos garantidos pela Primeira Emenda, mas eles também lutam por sua imaginação - a única coisa que faz uma pessoa ser diferente dos outros. Ao vê-lo retalhar os livros, estamos vendo, quase simbolicamente, o retalhamento das nossas imaginações. As crianças gostam dos livros porque querem viver naquele mundo, querem ver a magia, e não um mágico fajuto tirar um coelho da cartola. (...) Mas elas sabem que Hogwarts não é real e que Harry Potter não existe."
(...) As crianças são forçadas a renunciar à fantasia a fim de defender o próprio direito de possuí-la. (...) Mas os cristãos conservadores são apenas o grupo mais visível de uma ampla gama de grupos, cada um citando suas próprias preocupações ideológicas, em reação a uma mudança no paradigma das mídias. Cristãos anti-Harry Potter compartilham muitas preocupações com outros grupos de reformadores, associando o receio do poder persuasivo da publicidade ao receio do aspecto demoníaco de imersão, explorando, em suas críticas ao espiritualismo global, os anseios sobre o consumismo e o capitalismo multinacional. (...) 

Onde alguns vêem um mundo mais livre de gatekeepers (pessoas/instituições que controlam o acesso a algo, no caso, às informações e produtos culturais), eles (os conservadores) vêem um mundo em que as comportas foram abertas e ninguém pode controlar o fluxo de "esgoto" em suas casas. Esses grupos querem reivindicar uma reação coletiva aos problemas que certos pais não conseguem enfrentar sozinhos. (...) Como protesta Michael O'Brien, "Nossa cultura nos impele continuamente a baixar a guarda, a fazer julgamentos apressados que parecem mais fáceis, pois reduzem a tensão da vigilância. O ritmo acelerado e o grande volume de consumo que a cultura moderna parece exigir de nós, torna o discernimento genuíno mais difícil."


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

Continuação: O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dor de cabeça


"Ai que dor de cabeça!", resmunguei na volta pra casa depois do lanche pós-culto. Paramos na farmácia e desci pra comprar um remédio.

Lá fora um rapaz mal vestido em pé na porta e no meio da chuva estende acanhadamente a mão e com o canto da boca deixa escapar o pedido: "Moça, uma ajuda, por favor!" Na pressa, vai a resposta automática: "Não tenho!".

Lá dentro um senhor bem arrumado em pé na fila do caixa estende firme a mão com seu cartão, e na outra mão segura uma lata de leite dessas mais caras. Indignado, deixa escapar uma reclamação ao homem no caixa: "E esse rapaz que fica aí fora? Toda vez que venho aqui ele está. E sempre com a mesma desculpa: que está com fome. Uma vez dei dez reais, e agora ele está aí pedindo de novo. Ele me enganou."

Lá do outro lado o caixa fardado sentado estende a mão com a maquinhinha do cartão de crédito, e responde com igual indignação: "Pois é, todo sando dia ele está aí, parece que a fome dele é insaciável. Fica enganando todo mundo."

Lá atrás eu em pé esperando com salto alto nos pés, uma dor aguda na cabeça e o remédio na mão... eu que geralmente sou de ficar calada, não me segurei: "Desculpe, mas não acho que ele está enganando ninguém, não. Até onde eu sei a fome é mesmo insaciável. Se ele estivesse pedindo outra coisa, sei lá, dinheiro pra comprar uma passagem ou um remédio, poderia estar mesmo enganando. Mas ele precisa de dinheiro todos os dias é pra comer, assim como todos nós precisamos."

"Ah, mas ele é desocupado mesmo, dona. Esse aí é jovem e forte, não trabalha porque não quer", defendeu-se o caixa. "Minha jovem, quero ver se eu oferecesse um emprego a ele se ele ia aceitar", propôs o senhor. E eu retruquei: "O senhor vai oferecer mesmo, ou está só enganando? Porque vamos admitir: quem é que tem mesmo coragem de dar emprego a uma pessoa como ele? Não tem estudo, não tem onde morar, não tem uma roupa pra vestir, não tem onde tomar banho, não tem nem o que comer... Quem é que confiaria numa pessoa assim?"

Não quero aqui entrar no mérito de quem está certo e errado como se fosse possível dividir a sociedade em vilões e mocinhos. Mas é perceptível que há um erro na história, e sabe onde ele está? Em todos nós. Sim! Em mim, naquele senhor, no caixa e no mendigo. Na humanidade.

"A culpa é do sistema" pode soar impessoal e covarde, uma tentativa de jogar a culpa em outro, nesse caso no "Grande Outro", essa ordem secreta das coisas. Mas basta refletir um pouco pra perceber que quem sustenta e legitima esse sistema aparentemente todo-poderoso somos nós mesmos, os indivíduos débeis e comuns. 

O mendigo representa tudo aquilo que nós mais evitamos. É a escória da sociedade, o consumidor falho, o marginalizado, o fracassado na vida, o não-adaptado ao sistema e, portanto, justamente punido. Entendo o seu lado, mas não o defendo, pois é aquele que já se conformou com sua vida fora das regras e que muitas vezes tenta se justificar como uma mera vítima do sistema. "Minha vida é difícil, eu não tenho nada."

O senhor e o caixa representam tudo aquilo que nós mais desejamos. É o cidadão exemplar, o consumidor modelo, o trabalhador, o que luta pra vencer na vida, é o que segue à risca o sistema e, portanto, clama por justiça. Entendo o lado deles, e por isso não os condeno, pois são aqueles que se indignam em ver que precisam trabalhar pra ter o pão de cada dia enquanto o outro "não faz nada". "Minha vida é difícil, eu pago meus impostos."

A questão é: Quando vamos parar de nos fazer de vítimas, de jogar a culpa no outro e assumir nossa própria responsabilidade? Em vez de pensar: "Dar esmola não ajuda!" porque não pensar: "E deixar de dar esmola ajuda?"

E o que Cristo faria? O que Cristo nos ensina sobre ajudar ao próximo sem esperar recompensa ou mesmo mudança da parte do outro? Como Cristo é um exemplo pra nós de amor aos injustiçados (que sofrem injustiça) e também aos injustos (que não praticam a justiça)? Qual dessas palavras de Deus está na Bíblia: "Faz por ti que eu te ajudarei" ou "Não temas, eu te ajudo"?

"Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido." Lucas 19:10
...

A discussão encerrou-se ali. O senhor depois de pagar a conta foi lá fora pra dizer ao mendigo algumas palavras, espero que tenha sido mesmo pra oferecer um emprego. A chuva ficou mais forte. Entrei no carro e lá dentro meus amigos esperavam curiosos: "O que você estava conversando com aquele senhor? Você sabe quem é ele? Ele já foi presbítero lá na igreja..."

Ai que dor de cabeça!



Em Cristo,
Débora Silva Costa.
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