sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O primeiro voo a gente nunca esquece



A visão daquele manuscrito me comoveu. Um rolo imenso com inscrições em hebraico antigo, cuidadosamente guardado numa caixa de vidro. Aquela era a famosa Torah, o texto central do judaísmo. A cópia que eu contemplava faz parte do acervo da Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga judaica das Américas, em Recife-PE. Mas para mim aquele livro simbolizava muito mais que uma valiosa peça de museu: era a Palavra de Deus! Senti a mesma a emoção que outros sentiram ao ver ou ouvir as palavras daquele livro. Tive que me segurar para não chorar ali...

Sim, mas e o que isso tem a ver com o voo???
O voo! Meu Deus!!! Distrai-me com a beleza do lugar e quase perdi a hora! Agradeci ao simpático guia do museu, com quem eu animadamente conversava, e desci apressadamente as escadas, rumo à saída. Começava ali uma corrida contra o tempo. O voo com destino a Juazeiro do Norte sairia às 13h54min, e eu sabia que deveria chegar mais cedo, por causa do check-in. Além disso, seria a minha primeira viagem de avião. A expectativa era grande.

Infelizmente a viagem a Recife estava acabando. Naqueles três dias eu havia conhecido muitos lugares interessantes: a praia de Boa Viagem, o Marco Zero de Pernambuco, a cidade de Olinda, entre tantas outras atrações turísticas que ficarão para sempre na minha memória.

Por outro lado, felizmente a viagem estava acabando, pois eu não via a hora de chegar em casa, rever meus amigos e minha família. Tudo tinha sido maravilhoso, mas eu não aguentava mais ficar ali sozinha (apesar de rodeada de gente), sem ter com quem sair ou conversar.

Naquela manhã, quando saí do hotel rumo ao bairro do Recife antigo, eu havia seguido uma trajetória em linha reta. Seria fácil voltar, não tinha erro. Era o que eu pensava. No retorno, ainda distraída com o charme do lugar, entrei na rua errada, desviando-me totalmente da trajetória. Percebi o deslize tarde demais, quando já estava muito longe e tive que andar o dobro para voltar ao caminho. O centro da cidade estava apinhado de gente e isso me atrasava mais. Ainda resolvi desviar da rota e comprar lembrancinhas para alguns amigos. Eu não percebia o tempo precioso que estava perdendo. Tinha quase certeza de que estava no horário previsto, mas eu não contava era com os imprevistos.

Chegando ao hotel, tomei banho e me arrumei o mais rápido que pude. Por sorte (leia-se: Deus!), eu já havia aprontado a mala no dia anterior. Agora só faltava almoçar e pagar a conta do hotel. De manhã, quando saí pra passear, encontrei no centro da cidade uma rua com vários restaurantes onde eu poderia almoçar. Ao meio-dia saí do hotel e comecei a andar, procurando por um daqueles restaurantes. Chegando ao final da rua, não encontrei nenhum. Foi quando percebi que novamente tinha entrado na rua errada. Mas dessa vez era tarde demais para voltar. Procurei um local ali mesmo para almoçar e, graças a Deus, encontrei logo.

Na hora de pagar o almoço, a moça do caixa havia sumido. Comecei a me inquietar, pois já faltava 1h30min para o voo e eu ainda estava ali, no restaurante. Cinco minutos depois ela apareceu, paguei a conta e saí correndo de volta ao hotel. Escovei os dentes, peguei a mala e tranquei o quarto, que ficava no 4º andar. Chegando à porta do elevador, que surpresa: ele estava preso no 5º andar, com uma mulher dentro! Não esperei mais, desci correndo pelas escadas, segurando aquela mala pesada. Nem tive tempo de pensar em como teria sido se fosse eu que tivesse ficado presa no elevador. Com certeza perderia o voo. Mas eu não imaginava que livramentos muito maiores ainda estavam por vir.

Chegando à recepção do hotel, ainda ofegante pela descida apressada, paguei a conta. Avistei na praça em frente alguns táxis parados, mas todos os taxistas estavam almoçando. Olhei o relógio: faltava 1h15min para o voo. O desespero foi aumentando. Foi quando percebi que havia um táxi parado em frente ao hotel, deixando ali algumas encomendas. Acertei com o taxista e entrei no carro, rumo ao aeroporto. Senti um grande alívio.

Para minha surpresa o taxista era crente, o que descobri pelas músicas que ele escutava. Conversávamos amenidades no caminho, quando eu percebi que faltava apenas 1h para o voo. Àquela hora eu já deveria estar no aeroporto, se eu quisesse ir pra casa. Perguntei ao taxista: “Ainda falta muito pra chegarmos?” Ele ficou surpreso com a pergunta e respondeu: “Agora que começamos a andar. Por quê? Que horas sai o seu voo?”

Agora sim, entrei em desespero! Expliquei-lhe a situação e, naquele momento, vi o taxista também enlouquecer! Pisou o pé no acelerador com toda força, ultrapassou vários carros, mas era inútil: o congestionamento àquela hora era enorme. Além disso, o trajeto era repleto de semáforos. Foi quando ele me explicou: “Moça, você tem muita sorte, pois eu peguei um atalho logo no início, mesmo sem saber que você estava atrasada. Se eu tivesse ido pelo caminho de sempre, você não chegaria a tempo. Vou fazer o possível para que você chegue pelo menos meia hora antes. Vou te deixar na porta e, quando entrar no aeroporto, corra para o lado esquerdo, para fazer o check-in.”

Medo de avião? Naquele momento meu único medo era de não estar naquele avião. Eu não sabia se chorava ou se arrancava os cabelos. Resolvi orar. Pedi perdão a Deus pela minha negligência. Pedi que ele me concedesse ainda a graça de entrar no avião. Não prometi nada em troca, pois sabia que, mesmo que eu prometesse nunca mais me atrasar para nada, algum dia eu iria cair no erro novamente. Deus não espera que sejamos perfeitos para nos abençoar. Ele nos abençoa apesar de tudo. "Se somos infiéis, Ele permanece fiel." 2 Timóteo 2:13

E naquele momento eu senti que Deus guiava o táxi, livrando-nos de acidentes e fazendo-me chegar ao aeroporto exatamente 31 minutos antes do voo. O taxista ficou muito preocupado comigo e entregou-me um cartão com seu telefone, pedindo-me que eu ligasse assim que chegasse à minha cidade. Agradeci como pude, peguei a mala e ouvi a sua instrução: “Corra para o lado direito. Confusa, perguntei: “Mas você não tinha dito que era para o lado esquerdo?” A tempo ele corrigiu-se: “Desculpe, eu havia dito errado, é para o lado direito mesmo! Boa viagem!”

Entrei correndo naquele aeroporto, com a mala na mão (na pressa esqueci de pegar logo na entrada uma espécie de 'carrinho' para carregar a bagagem), e segui para o lado esquerdo! Pela terceira vez naquele dia eu entrava no caminho errado, não sei como consegui errar tanto de uma vez só! Quando percebi o equívoco, minha reação foi sair correndo com todas as forças para o lado correto, mas o aeroporto era grande e a mala pesada. O cansaço estava me vencendo. Ainda por cima as pessoas me olhavam como se eu fosse uma louca! Mas eu não me importava: só queria era chegar em casa.

Enfim cheguei ao check-in da empresa correta. Mas o alívio total ainda não tinha chegado. Faltava o mais difícil: entrar no avião. Falei com a atendente e ela me deu a pior notícia da minha vida: “Desculpe, mas o check-in já encerrou. Encerra-se meia hora antes do voo.” Agora sim, com toda certeza, eu sabia o que era desespero. Eu não tinha dinheiro para ficar em Recife até o próximo voo (que seria apenas no dia seguinte), muito menos para pagar uma multa de R$ 100,00 por ter perdido o avião! Não havia nada a fazer, implorar talvez. Foi isso que fiz. Mas não adiantou. A regra era bastante clara.

Parecia um pesadelo. Queria que alguém me acordasse, então eu estaria na minha cama, em casa. Olhei para todos os lados do aeroporto com uma sensação horrível, de abandono, solidão, impotência... A primeira lágrima preparava-se para cair do meu olhar, quando ouvi a voz de um rapaz atrás de mim. Ele deveria estar no mesmo voo que eu, mas chegou igualmente atrasado. Falou com a atendente e ouviu a mesma resposta. É... pelo menos agora eu tinha companhia no desespero. Mas o rapaz não se abalou. Disse: “Quero falar com o gerente. Sou funcionário da Infraero, tenho que ir nesse voo.” Aquelas palavras pareciam música para os meus ouvidos. Intrometi-me na conversa e também exigi falar com o gerente. Não foi preciso. Outro funcionário chegou e, intimidado pela posição do rapaz, deixou-o passar. E, para não ser injusto, deixou-me ir também.

Parecia um sonho. Mas agora eu não queria mais acordar. Queria sim, realizar o sonho que era meu e de muita gente, de viajar de avião, por que não? Peguei meu comprovante e segui para o portão de embarque. Percebi que meus braços doíam e que as alças da mala tinham deixado marcas. Não sei de onde tirei forças para carregá-la. Mas agora nada disso importava: eu estava em estado de graça.

Mas, antes do voo, um último susto: ao colocar a mala na esteira, rasguei o comprovante sem querer. Que desastrada! Olhei para a funcionária com uma cara de choro e ela disse: “Deixe-me ver. Se tiver rasgado o código de barras, teremos que imprimir outro.” Havia dois códigos de barra naquele papel, um ao lado do outro, separados por um espaço de meio centímetro. Incrivelmente, o papel rasgou-se exatamente entre os dois códigos de barra, deixando-os intactos! Deus é maravilhoso! Ele é milimetricamente exato, até quando transforma nossos erros em bênçãos para nós e glória para Ele. "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus." Romanos 8:28

Quando enfim entrei no avião, ainda estava meio desorientada, sem acreditar como e porque eu estava ali. Ao ver Recife de cima, do alto das nuvens, experimentei uma das melhores sensações da minha vida. Não sabia se ria ou se chorava. Fiz as duas coisas. E fiz também uma oração de gratidão a Deus. Não era a beleza da paisagem, mas a beleza do meu Deus que me comovia. E hoje escrevo esse texto para agradecer a Ele, pois para mim uma série de acontecimentos tão incríveis jamais poderiam ter sido mera coincidência. O meu primeiro voo com certeza jamais esquecerei.

"As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; novas são a cada manhã." Lamentações 3:22, 23



Em Cristo,
Débora Silva Costa.

7 comentários:

  1. Débora,

    Que história emocionante! Gostaria muito de conversar mais (pode ser por e-mail) sobre a sua visita ao Recife, pois têm coisas por lá que me interessem muito. Por exemplo, li que a parte da cidade chamada "Antônio Vaz" era uma ilha usado como esconderijo por um pirata pelo mesmo nome--e que esse pirata era um de muitos piratas judeus (isso de um livro interessante chamado "Jewish Pirates of the Carribean"). Esse "pirata" era muito forte no tempo dos holandeses--até ajudava aos mesmos tomarem conta da cidade contra os portugueses.

    Tem outras coisas que eu acho fascinantes alí que nunca tive oportunidade de conhecer.

    Se quiser, pode me enviar um e-mail.

    André

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  2. Pr. Andrew,

    Pois é, foi uma aventura e tanto que vivi em Recife. Mas a melhor parte do passeio foi conhecer essa sinagoga judaica, a primeira das Américas. Pena que o tempo foi bastante curto e não deu pra perguntar tudo que eu gostaria ao guia do museu. Mas tem várias histórias legais sobre os judeus que estou pensando em postar.

    Essa história dos piratas judeus eu fiquei sabendo agora! Muito interessante!!! Pode deixar, vou te enviar o texto (quando eu escrever... rsrs) com tudo que eu aprendi na visita à sinagoga.

    Abraço!

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  3. Débora! Amei a história! Deus seja louvado pelo cuidado e proteção para contigo! Beijo!
    P.S.: Posta mais sobre o museu que você visitou e tudo que aprendeu...tô curiosa! ;)

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  4. Obrigada, Mayara! Toda honra e glória seja dada a Deus.

    "Quando eu não estava atento,
    já fora de cena e sem esperar
    O meu Deus me deu do melhor,
    me deu muito mais e foi mais além
    me fez conhecer um pouco do céu..."
    (Carlos Sider - 'Quando eu não estava atento')

    Sim, com certeza, em breve postarei o pouco que consegui ver no museu. Inesquecível!!!

    Beijão! Saudades de vc!

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  5. É muita loucura (tua, claro!) e muito Deus numa história só, Débora! :D

    Rolei de rir. Dava um ótimo pedaço de comédia. E o texto está com um suspense excelente! :)

    Felizmente nosso Deus é misericordioso e bom demais: sempre olhando com graça para cada um de nós, seus desajeitados filhos.

    Glória a Deus!

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  6. kkkkkkkk Amém, Avelar.
    Agora é cômico, mas poderia ter sido trágico! Mas graças a Deus, que muda o rumo da nossa história, não importa o estrago que tenhamos causado!

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  7. Juciene Brito16/10/2011 23:28

    Você vive segurando o choro e chorar faz bem, principalmente estando tão próximo assim de um dos manuscritos em Hebraico da palavra de Deus, eu choraria, também sou chorona mesmo, rsrsrs, nossa essa história é tão emocionante q quase conseguia ouvir a música do fantástico mundo de Bob, rsrsrs, o motorista escutava Diante do trono? Já pensou um “vai chover Senhor derrama a chuva neste lugar” demoraria mais ainda, ainda bem que o povo não sabia que era Cearense. Falando meio sério, parece realmente um roteiro de filme, meio suspense, meio terror, meio comédia, meio conto de fadas, até posso ouvir outra música “We are the champions” pareceu o filme Desafiando gigantes como diz os meninos da Graça “é muito milagre para um filme só” então digo foi muito milagre para um dia só. Se bem que a nossa vida é um milagre constante. Devemos sempre estar nas mãos de Deus pois é Ele que cuida de nós. Posso ouvir uma ultima música “Vem, meu Senhor mostra o melhor traz ao meu mundo a paz Seja o que for, seja onde for, tudo é melhor quando é Deus quem faz” realmente tudo é melhor quando é Deus quem faz, “PODEMOS MUITO BEM fazer planos para o futuro mas o resultado final é o Senhor que produz.” (PV 16:1, Bíblia viva). Espero q na demora das lembrancinhas uma tenha sido pra mim afinal ainda estou com o “vale um presente”. Deus abençoe sua vida, você é uma pessoa muito especial. Abraço.

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