sábado, 15 de outubro de 2011

Um passeio na sinagoga


Mês passado viajei pela primeira vez para Recife-PE, capital que se destaca nacionalmente pelo turismo, cultura, economia e história. Entre tantas atrações, monumentos e belezas naturais, tive a felicidade de conhecer um museu que tem importância não apenas para o Nordeste ou para o Brasil, mas para todo o mundo ocidental. Trata-se da primeira Sinagoga Judaica das Américas, a Kahal Zur Israel!

Mas porque uma sinagoga judaica logo aqui no Nordeste? Como os judeus foram parar em Recife?
Historicamente os judeus foram (e ainda são) um povo muito sofrido. Egípcios, babilônios, assírios, romanos, católicos, alemães e árabes são alguns dos povos que perseguiram, escravizaram e mataram judeus ao longo dos tempos. Uma dessas perseguições foi promovida pela Inquisição Espanhola, que atuou no período de 1478 a 1834 na Península Ibérica, uma conversão forçada de judeus ao cristianismo, que condenava à pena de morte os que resistissem.

Acuados, os judeus fugiram para outros territórios, como o norte da África e o Novo Mundo (principalmente Brasil e México), onde poderiam ter liberdade de culto. Mas Portugal também era um dos países perseguidores, o que valia igualmente para as suas colônias, como o Brasil. Mas naquela época o Nordeste brasileiro estava sob o domínio holandês, e, uma vez que na Holanda a comunidade judaica era tolerada, isso possibilitou que muitos judeus se estabelecessem aqui, principalmente em Recife.

Vista do Recife Antigo
Mas essa abertura brasileira aos judeus durou apenas vinte e quatro anos, cessando com a expulsão dos holandeses, em 1654. Novamente fugitiva, a comunidade judaica constituiu-se em Nova Iorque, nos Estados Unidos, cidade que ajudaram a desenvolver e onde também foi fundada a segunda sinagoga do mundo ocidental. Mas, embora curto, o período que os judeus passaram aqui no Brasil foi marcante, e a Kahal Zur Israel, construída em 1636, é um testemunho vivo da passagem desse povo.

“Os homens se apresentarão ao Senhor, seu Deus, no local que ele escolher.” Deuteronômio 16:16b
O termo Kahal Zur Israel vem do hebraico e significa literalmente “Rocha de Israel”. Está localizada no Centro Histórico de Recife, junto a outros pontos turísticos, como o Marco Zero, a Torre Malakoff e o Parque das Esculturas. A sinagoga chama a atenção não pela suntuosidade ou grandeza, como os templos de outras religiões que há na cidade (do catolicismo, por exemplo), ou como outras sinagogas judaicas pelo mundo. Pelo contrário, o destaque está justamente no fato de funcionar numa das casas da Rua Bom Jesus (que já se chamou também Rua dos Judeus e Rua dos Bodes). Foi até um pouco difícil encontrá-la, pois poucos recifenses sabiam indicar a localização do tal templo. Também é preciso pagar uma pequena taxa para entrar.

Finalmente dentro do prédio, só se confirma a impressão inicial de simplicidade e recato, sem aquela “aura” de local sagrado. O museu é uma reconstituição da sinagoga (já que esta foi em parte destruída após a expulsão dos holandeses), mas conta com escavações que mostram vestígios do prédio original, identificados recentemente e preservados pelo Centro Cultural Judaico de Pernambuco. O edifício atual é uma colcha de retalhos, contrastando elementos de diversas épocas, como um poço (utilizado para rituais de purificação) datado do século XVII, e a atual fachada, que data do século XIX.

"Mikvê", piscina utilizada em rituais de banho de purificação
Ao lado da área de escavações fica uma pequena sala como documentos, fotos, livros, cartas e objetos variados de judeus que nasceram ou moraram no Brasil em diversas épocas. No andar térreo ainda é possível ver alguns artefatos recuperados na busca arqueológica dentro da sinagoga e painéis explicativos de toda a trajetória judaica no Brasil. Ali constava, por exemplo, que o primeiro rabino da sinagoga foi o luso-holandês Isaac Aboab da Fonseca (1605-1693).

Vista do andar térreo do museu,
com os painéis (acima) e escavações arqueológicas (abaixo)

Subindo as escadas (em cujo corrimão está escrita a passagem de Deuteronômio 16:16), rumo ao primeiro andar, há um pequeno memorial de judeus brasileiros. Já no piso superior, o maior destaque do local: a sinagoga de fato (ou melhor, um modelo da original). O espaço conta com alguns bancos, ao fundo uma espécie de armário onde se guarda a cópia da Torah, à frente um púlpito para a leitura do rolo e, ao centro, a própria Torah, numa redoma de vidro. Diferentemente do templo do Antigo Testamento, uma sinagoga funciona como local de reuniões dos judeus, uma espécie de casa de oração e de leitura do livro sagrado, mas sem práticas de sacrifícios. No entanto, o local atualmente serve apenas para visitação, salvo em raras exceções, como no caso da foto abaixo, de um ato religioso em homenagem às vítimas do Holocausto.

Ato religioso na Kahal Zur Israel com a presença do ex-presidente Lula

Ainda no primeiro andar, há uma pequena vitrine com souvenires diversos. Alguns me chamaram a atenção, como o chaveiro da estrela de Davi, que é formada por dois triângulos unidos. Segundo o guia do museu, o primeiro triângulo representa Deus, o homem e o povo, e o segundo representa o passado, o presente e o futuro. Segundo a tradição judaica (isso não consta na Bíblia), Davi teria usado essa estrela como proteção na batalha com Golias, e o brilho da estrela teria cegado o gigante, possibilitando a vitória. Por isso, hoje em dia, os judeus utilizam supersticiosamente o objeto para proteção.

Outro chaveiro que achei até um pouco estranho (parecia coisa de marçonaria) foi o de uma mão com um olho em cima. De acordo com o guia, isso simbolizava para os judeus o poder de Deus, sendo Ele "a 'mão' que tudo alcança e o 'olho' que tudo vê". Mas a tradição judaica acabou adotando o símbolo como amuleto contra o mau-olhado!


Isso me deixou um pouco triste, ao final da visita, pois percebi na prática como os judeus, povo a quem foi confiada a Palavra de Deus (Romanos 3:2), ao longo dos tempos criaram tradições e superstições que muitas vezes competem com ela. (Marcos 7:8)

"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo."
Colossenses 2:8


Mas, por outro lado, fiquei feliz por conhecer um pouco mais a cultura e história de um povo que Deus escolheu salvar e, através dele, trazer salvação também aos outros povos, pois foi dos judeus que veio o Messias, Jesus Cristo, nosso Salvador (João 4:22)!


"Mediante o evangelho os gentios são co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa em Cristo Jesus."
Efésios 3:6



Em Cristo,
Débora Silva Costa


2 comentários:

  1. Eu conheci uma "monstro"! Pequenininha, vc espalhe seus dons e quem vc é...
    Parabéns pelo blog!
    Pr. Marcelo, Anne, Calebe e Levi
    Servindo ao Senhor com Alegria
    www.pibcampossales.blogspot.com
    www.mimbare.blogspot.com

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  2. Evandro de Brito Silva12/01/2012 20:45

    Gostei de seus artigos, e esse em especial me faz lembrar aquele fato que aconteceu com você no dia da sua volta pra juazeiro. Fica com Deus, que Ele possa abençoar sua vida cada vez mais.

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