sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Puro, mas não tão simples assim



O Cristianismo “como de fato é e sempre foi, quer eu goste ou não”. Isto é o que C. S. Lewis se propõe a explicar na sua famosa obra Mere Christianity (traduzido no Brasil como Cristianismo Puro e Simples, Editora Martins Fontes, 2005, 77 págs.). A intenção de Lewis não foi mostrar um Cristianismo “água com açúcar”, tão fácil que possa ser compreendido até por criancinhas de seis anos, como talvez nos leve a pensar o título da versão brasileira. Pelo contrário, o próprio autor admite que o Cristianismo é uma religião difícil, talvez a mais complexa de todas, mas que "não nos convém exigir uma religião simples. Afinal de contas, as coisas no mundo real são complexas."

Lewis, na verdade, tenta explicar o essencial do Cristianismo. E ele o faz de um modo claro, simples, lógico e prático. Para isso, o autor fixa-se nos pontos de concordância entre todos os cristãos, evitando envolver-se em polêmicas de denominações, doutrinas e interpretações, mostrando que, apesar das muitas diferenças, os cristãos têm mais em comum do que imaginam. Mesmo sendo anglicano, ele sempre procurava não expor as suas próprias convicções doutrinárias, em detrimento de outras, pois seu objetivo não era ajudar aqueles que estão hesitando entre uma e outra vertente do Cristianismo, mas aqueles que desejavam ter uma visão geral da religião.

Cristianismo Puro e Simples é fruto de uma série de palestras de rádio gravadas por C. S. Lewis e transmitidas pela BBC durante a Segunda Guerra Mundial. Por isso o livro mantém o tom coloquial e amigável que ele costumava ter em suas conversas com os ouvintes. Considerada um clássico da apologética cristã (o terceiro livro cristão mais influente desde 1945 segundo a revista Christianity Today), a obra traz um raciocínio que vai desde a simples crença num Criador até chegar aos principais ensinamentos cristãos, não desviando de questões polêmicas como a doutrina do pecado, o diabo, a abstinência sexual, o divórcio, a Trindade e o problema do inferno e do mal.

Além de escritor, Clive Staples Lewis (1898-1963) foi professor universitário e poeta. Atualmente é mais conhecido por suas clássicas Crônicas de Nárnia, obras de ficção que também se baseiam em ensinamentos bíblicos. Apesar de ter escrito vários livros de teologia, sendo considerado um dos escritores cristãos mais influentes de sua época, Lewis nunca se sentiu confortável com o rótulo de teólogo, considerando-se até mesmo um leigo no assunto. Antes de se tornar cristão era ateu convicto e se converteu através da influência de, além de outros, J. R. R. Tolkien, seu amigo e colega de trabalho, autor de O Senhor dos Anéis. Dessa forma, ninguém melhor do que um ex-ateu para responder os questionamentos de alguém que não crê.

E Lewis dá suas respostas baseado em argumentos lógicos instigantes, em exemplos práticos bastante originais, e pouco, ou quase nada, em citações bíblicas. Por este motivo, sua obra chegou a ser criticada por alguns cristãos. Mas talvez sua intenção tenha sido alcançar justamente as pessoas que não conhecem a Bíblia, que não é clara muitas vezes nem para quem está dentro do Cristianismo, quanto mais para quem está de fora. Mas quem é cristão ou já conhece a Bíblia percebe que Lewis baseia-se em princípios dela. 

Outra questão um tanto polêmica é que neste livro, principalmente no último capítulo, Lewis deu a entender que acreditava na evolução das espécies por meio da seleção natural, que entra em conflito com a crença em um Deus Criador, a base do Cristianismo. Mas é preciso entender que em sua época, a evolução era muito difundida e pouco questionada, inclusive nos meios acadêmicos teológicos. Além disso, Lewis não se mostrava tão certo disto, como também em outras matérias em que não fosse especialista, deixando sempre a cargo do leitor decidir crer ou não no que ele falou. Com humildade ele reconhecia quando não soubesse dar uma resposta adequada a alguma pergunta, pedindo até que desprezassem aquela idéia sua que não serviu para elucidar o assunto.

Em suma, Cristianismo Puro e Simples é útil tanto para um ateu que deseja conhecer as bases da religião cristã, quanto para uma pessoa de qualquer outra religião, e até mesmo para quem já é cristão, seja do catolicismo ou até da mais variada denominação evangélica. Não é tão simples de ler quando se quer ler rapidamente, pois é preciso acompanhar passo a passo o brilhante raciocínio de C. S. Lewis para não se perder. Mas isso não torna o livro maçante, pelo contrário, sua exposição lógica, didática e pessoal torna a leitura ainda mais interessante.  

Débora Silva Costa
(Resenha feita pela estudante para a disciplina de Jornalismo Impresso II do curso de Comunicação Social - Jornalismo.)


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