sábado, 11 de outubro de 2014

#papocabeça - O que é essa tal de secularização?


Todo cristão que se preze já deve ter ouvido este "palavrão", geralmente inserido num discurso de advertência e acompanhado de uma expressão de desaprovação: "a secularização da igreja", "a música secular", "o secularismo"... Mas, afinal, qual a origem deste conceito, e porque ele é tão mal visto no meio religioso?

A palavra secularização é oriunda do latim saeculum que significa ‘século’, ‘época’. Com o tempo, adquiriu outros significados como: ‘o mundo’, ‘a vida do mundo’ e ‘o espírito do mundo’. Mas a maneira como a igreja lida com o conceito não tem o mesmo sentido dado pelos estudiosos de fora do meio eclesiástico. Para os crentes o termo foi difundido com um sentido negativo, como algo mundano, hedonista. Já os pensadores em geral vêm a secularização apenas como um fenômeno sociológico neutro que merece ser estudado. Para entender porque secularização adquire o seu sentido pejorativo, é preciso primeiro que a gente pare de avaliá-lo sob o olhar da religião, e o observe a partir de outro ponto de vista: o da sociologia.

Os sociólogos apontam para uma evolução histórica da religião na sociedade, desde as práticas místicas e rudimentares do homem primitivo até o surgimento das atuais instituições religiosas extremamente desenvolvidas e organizadas. Para eles, a secularização é a melhor explicação para essa transformação progressiva da religião. A secularização se define como uma aproximação cada vez maior dos fenômenos religiosos com as práticas laicas, gerando uma adaptação do sagrado (religião) aos valores profanos (do mundo). Segundo o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), “a ação religiosa (...) em sua existência primordial, está orientada para este mundo.” A sua obra Sociologia da Religião traz várias características desta gradativa adaptação do sagrado ao profano/mundano. Aqui algumas delas:

1) a simbolização: passagem de uma adoração da natureza para uma crença simbólica em seres espirituais;
2) a antropomorfização: atribuição de características e competências humanas aos seres espirituais;
3) a categorização: classificação das divindades (deuses ou demônios, deuses ligados a profissões, a cidades, a fenômenos naturais, a clãs, etc.);
4) a universalização: o aparecimento das grandes religiões monoteístas, substituindo aquele panteão de divindades por um deus único e universal;
5) a abstração: concepção de ideias religiosas complexas, como um "deus transcendente", o "pecado" e a "salvação";
6) a sistematização: utilização das dos escritos religiosos como forma de preservar as revelações e tradições que até então eram transmitidas de forma oral;
7) a racionalização: desenvolvimento do pensamento filosófica na religião (teologia) e de uma doutrina religiosa organizada, lógica e coerente;
8) a institucionalização: passagem do culto doméstico para uma adoração em congregações, garantindo a continuidade da religião;
9) a hierarquização: o aparecimento das figuras do mago, do profeta e do sacerdote, entre outras funções, como formas oficiais de administrar o sagrado;
10) a burocratização: estabelecimento da instituição religiosa, com suas hierarquias, suas regras, seus cargos, sua oficialidade...

Enfim, podemos perceber através destas características que a secularização (pelo menos no início) promove não a destruição, mas a evolução da religião de um estágio mais primitivo para um nível cada vez mais avançado. Mas a secularização não atua apenas no desenvolvimento da religião: ela também é responsável pela modernização da própria sociedade. Para Weber, religião e modernidade não são opostos nem incompatíveis, pois foi a secularização da religião que contribuiu para o surgimento da modernidade. Quando há uma transformação de pensamento religioso ocorre também uma alteração nas práticas seculares. Deste modo, a secularização é um fenômeno que nasce dentro do pensamento religioso, mas que atua também fora dele: no desenvolvimento das cosmovisões (visões de mundo), das instituições sociais, do direito e da moral, da racionalidade da ciência, ou mesmo de um novo sistema econômico.


Mas, é claro, não há dúvida de que, com a secularização, a religião perdeu cada vez mais sua legitimidade nos tempos modernos. Se, por um lado, a religião é cada vez mais voltada para este mundo, por outro lado, o mundo está cada vez mais afastado da religião. Ou seja, a religião desempenhou papel decisivo para a o surgimento da modernidade, mas depois este mesmo progresso tirou o lugar de destaque da religião na sociedade. É o que Weber chama de “desencantamento do mundo”, quando a racionalidade moderna põe em xeque as visões religiosas e místicas tradicionais.

Com o desenvolvimento da modernidade, a separação sagrado/profano, religioso/secular, divino/mundano foi ficando cada vez mais forte. A religião ficou restrita ao espaço pessoal e privado, enquanto que a política ocuparia o centro da vida social, pública. A secularização originou um luta do campo religioso contra campos concorrentes que exercem controle (mídia, política, escola, entretenimento, ciência, cultura, etc.). Na atual sociedade secular, ninguém pauta sua vida somente pela religião, nenhuma explicação meramente religiosa é levada a sério, e nada mais é exclusivamente sagrado. É daí que vem esse sentido negativo que hoje acompanha a palavra secularização.

Três fenômenos são característicos do fim do monopólio da religião nas sociedades secularizadas. O primeiro é a diversidade religiosa, quando não existe mais uma religião absoluta, capaz de impor às demais religiões e a toda a sociedade seus valores. Funciona a lógica de mercado econômico, em que as religiões são oferecidas como produtos e competem entre si para cativar a clientela. Também há a tendência ao relativismo religioso, demarcando a religião num domínio particular, íntimo, emocional e subjetivo, considerando-a incapaz de interferir nas decisões em sociedade. E, por fim, a liberdade religiosa, que confere uma liberdade de escolha ao indivíduo, além da liberdade institucional de formação de novos grupos e movimentos.


“A secularização do mundo moderno representa, portanto, a afirmação da autonomia criadora do homem, o predomínio da razão antropocêntrica.” (ARAÚJO)

Antes, no entanto, de declararmos aqui a derrota da religião no mundo secular, é preciso saber que essa oposição radical entre o religião/fé e modernidade/razão é algo totalmente discutível. A secularização provoca reações diversas: de um lado estão os que creem no fim do sagrado nesta cultura radicalmente secularizada, e de outro os que acreditam na revanche da religião num mundo totalmente esgotado pela falta de fé. Estes movimentos com visões opostas unem-se em uma só constatação: ao que tudo indica, religião (encantamento) e secularização (desencantamento) não são excludentes. Isso nos leva a algumas questões:

* É realmente possível que a religião seja totalmente pura, sagrada e separada do mundo, tendo em vista a força da secularização?
* Por outro lado, até que ponto a religião pode adaptar-se ao mundo sem perder sua força, primazia e essência?
* Como a religião tem sobrevivido no mundo moderno e secularizado? Ela permanece intacta ou tem sofrido alguma transformação?

Reflita a respeito... e deixe um comentário aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fontes: 

ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. Religião e Modernidade em Habermas. São Paulo, Edições Loyola. 1996.

FIGUEREDO FILHO, Valdemar. Entre o Palanque e o Púlpito: Mídia, Religião e Política. São. Paulo: Annablume, 2005.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia e Poder Simbólico. São Paulo: Paulus, 2005.

WEBER, Max. Sociologia da Religião. In: Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva, v. 1. Brasília: UNB, 2000.

sábado, 27 de setembro de 2014

#papocabeça - O que a moral tem a ver com a religião?


“A moral deixaria de ser moral, caso não contivesse mais nenhum elemento religioso.” Essa frase tão impactante parece até que veio de um tratado bíblico de algum teólogo, de uma declaração doutrinária de alguma igreja, de uma pregação expositiva de algum pastor... Mas não é nada disto que você está pensando! Esta frase é simplesmente a conclusão a que chegou o respeitado pensador Émile Durkheim sobre o fundamento divino da moralidade humana. Trata-se de uma análise totalmente sociológica e filosófica, não tem nada de teologia ou misticismo! Ou seja, ele buscou esclarecer a religião a partir de fatores fora dela, dando explicações que poderiam ser entendidas por todas as pessoas, fossem elas religiosas ou não.

Nós cristãos entendemos e aceitamos que a moralidade (conjunto de regras que orientam o comportamento humano) e a consciência (noção das próprias ações e deveres) vêm de Deus porque a bíblia nos diz que é assim, e porque ela é para nós a regra da vida prática. Mas e se alguém que não acredita em Deus te pedisse uma explicação bem convincente para a moralidade humana sem usar a bíblia? Durkheim fez justamente isto, investigou profundamente as raízes da moral, e qual não foi a surpresa: ele encontrou o alicerce justamente no mesmo lugar em que já estava posto: no sagrado, na fé, no divino, na religião! Vou tentar ser o mais clara possível, pra que todos possam entender a grande conclusão dele.

Durkheim (1858-1917) foi o primeiro sociólogo a criar métodos na sociologia, sendo "As formas elementares da vida religiosa" uma de suas obras mais importantes. Ele propõe o conceito de “consciência coletiva” como sendo uma espécie de alma da sociedade, a identidade de um grupo, e que seria um protótipo da moralidade, da ética e do direito como conhecemos hoje. "Consciência coletiva" seria como uma grande “pessoa coletiva”, constituída pelas consciências particulares de cada um dos seres humanos, de tal maneira que esse “espírito de coletividade” é bem maior (transcendente) que as consciências individuais, mas, ao mesmo tempo, permanece dentro da consciência de cada um dos indivíduos (imanente).

Para Durkheim, a fé religiosa não é uma simples atitude divina e sobrenatural, mas é uma expressão desta “consciência coletiva”. A fé, no entendimento sociológico dele, é um conjunto de símbolos que servem para a comunicação e que podem agrupar as pessoas em torno de um propósito comum e promover um consenso na comunidade. É o que nós cristãos entendemos como comunhão em torno da mesma crença. Para compreender como Durkheim chega a estas raízes sagradas da autoridade moral, é preciso acompanhar a sua demonstração das semelhanças entre moralidade (1) e religião (2).

De acordo com a sua lógica de raciocínio, a moralidade (1) têm duas características principais:
1a) caráter impessoal da autoridade moral
1b) ambivalência de sentimentos provocada no indivíduo

Calma que eu vou explicar!


O que é impessoalidade da autoridade moral (1a)? Ele quer indicar com este conceito que as regras morais são dotadas de uma autoridade especial, que faz com que elas sejam obedecidas por nós automaticamente. Ou seja, nós não obedecemos uma norma ou lei porque a avaliamos detalhadamente e chegamos à conclusão racional de que ela é realmente boa e, por isso, deve ser seguida. Não, pelo contrário, as leis são obedecidas pelo simples fato de ordenarem algo, simplesmente por serem leis e pronto. Nós internalizamos esses comportamentos generalizados de uma sociedade como sendo exigências morais, e passamos a cumpri-las quase mecanicamente, simplesmente pelo seu caráter obrigatório.

E essa tal de ambivalência de sentimentos (1b)? Ele refere-se a dois sentimentos ambíguos que brotam na gente no momento em que cumprimos uma regra moral. São como duas forças opostas coexistindo e cooperando na formação da obrigação moral: uma força de coação e uma força de atração. A força de coação é aquela que nos leva a cumprir uma lei pelo medo, ou seja, agimos moralmente por submissão e temor a uma autoridade que impõe respeito por estar tanto "acima de nós" como, ao mesmo tempo, "interna a nós". Por outro lado, há também a força de atração, que nos conduz à obediência também por reconhecer que na lei há algo de desejável, ou seja, agimos moralmente por reconhecer que o bem é digno de ser buscado, que é um ideal a ser almejado, que traz alguma satisfação pessoal, que desperta em nós uma vontade de segui-lo com zelo e entusiasmo. Portanto, a "obrigatoriedade" e “desejabilidade” são dois sentimentos ambivalentes, duas faces da mesma moeda da moralidade.

Sim, e o que isto tem a ver com a religião? Este é o ponto! Durkheim vê essas duas características acima da moralidade como semelhantes a outras duas características da religião (2), que são:
2a) delimitação dos domínios sagrado e profano
2b) atitude ambivalente do sagrado

Vamos lá explicar essas duas características!


Primeiro, pra entender essa separação entre sagrado e profano (2a), é preciso saber o significado desses dois domínios tão diferentes. Durkheim diz que “O sagrado tem a ver com aquilo que é individualizado, separado. Ele se caracteriza pelo fato de não se misturar com o profano. Caso viesse a acontecer, ele deixaria de ser o que é. Qualquer mistura, o menor toque, tem como consequência sua profanação.” (Note que é igualzinho ao conceito teológico de "santo", que quer dizer algo "separado" do mundo e para Deus). Pois é, e olhe só: esta atitude de respeito para com o sagrado é semelhante ao que acabamos de ver com relação à obediência meio que automática à autoridade moral. O crente também assume certos comportamentos quando entra em comunhão com a comunidade religiosa, de modo que internaliza os preceitos religiosos, e passa a cumpri-los quase automaticamente, simplesmente pelo seu caráter de "ordem divina" e "mandamento".

No aspecto da ambivalência do sagrado (2b), também percebemos a mesma coexistência das duas forças opostas que já identificamos acima em relação às normas morais: uma força que impele e uma força que atrai. O sagrado desperta esses dois sentimentos ambíguos no indivíduo: “a aura que atrai e encanta e ao mesmo tempo que assusta e aterroriza.” O ser divino (Deus) é tanto um ser proibido, respeitado e temido, mas também que é bom, amado, desejado. Como entende Durkheim, "o objeto sagrado nos inspira, senão o temor, pelo menos um respeito de que ele nos isola, que nos mantem a distância; e ao mesmo tempo, ele é objeto de amor e de desejo; nós tendemos a nos aproximar dele.”

***

Enfim! Se formos transformar essas ideias numa equação chegaríamos à conclusão que:
Se 1a = 2a (impessoalidade da autoridade moral = delimitação entre sagrado e profano)
e 1b = 2b (ambivalência de sentimentos da moral = ambivalência do sagrado),
então 1 = 2 (moralidade = religião).

Trocando em miúdos: Durkheim enxerga que a moralidade é similar à religião por ambas carregarem características em comum (aqui apresentamos duas principais). A moral preserva o conteúdo da religião mesmo que abandone a forma religiosa. "As analogias estruturais entre o sagrado e a moral levam Durkheim a concluir pela existência de uma base sagrada da moral. [...] As regras morais extraem sua força vinculante da esfera do sagrado."

Este texto é apenas uma reflexão sobre uma pequena parte da teoria de Durkheim. Não tem o objetivo de ser um ensaio exaustivo sobre o tema, nem esgotar toda a verdade sobre a relação entre moral e religião. Mas a partir desta pequena análise podemos enxergar como moral e religião têm tudo a ver, e também compreender como funciona a nossa sociedade atual, em que cada vez mais questões religiosas influenciam discussões jurídicas, princípios éticos e até decisões políticas (a força da pauta religiosa nas eleições é um bom exemplo disto). Isto nos leva a algumas questões:

* A moralidade pode ser considerada como um argumento convincente para provar a existência de Deus? 
* Todo homem tem uma consciência religiosa mesmo que se afirme ateu ou não religioso? 
* Será que realmente religião e política (direito, justiça, ética) estão, ou deveriam estar, separados?

Reflitam a respeito... e comentem aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fonte: HABERMAS, Jürgen. A Autoridade do Sagrado e o pano de fundo do Agir Comunicativo. In: Teoria do Agir Comunicativo 2: sobre a crítica da razão funcionalista. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

domingo, 7 de setembro de 2014

#papocabeça - É errado "discutir religiosamente"?



Hoje li num texto: "Há evangélicos que não perdem tempo em discutir religiosamente a sexualidade, o aborto, as drogas; estes evangélicos estão mais preocupados em aceitar... "

É claro, tem coisas que não dá pra gente impor ou evitar, que acontecem e que vão piorar mais ainda. Mas mesmo que não tenhamos a liberdade de interferir na liberdade do outro, nós precisamos exigir pelo menos a nossa liberdade de discordar - e manter essa postura de quem não concorda com certas coisas, mas tolera.

"Discutir religiosamente" não é perda de tempo, nunca! Só é preciso ter moderação quando vem a interferir na legislação da vida em sociedade - estado laico (nesse caso, além de perda de tempo, não tem nada a ver!) Os padrões e valores da sociedade são outros e não posso querer que todos sigam a Bíblia à força. Pelo contrário, devo dar liberdade para que as pessoas, voluntariamente, ouçam a verdade, busquem a Deus e corrijam suas vidas pessoais (a salvação é individual, e não "Essa nação é do Senhor Jesus!").

Fora isso, religião tem que ser discutida, sim, nos nossos relacionamentos com os outros (principalmente!), porque pra o cristão a fé norteia tudo, e faz parte da sua própria identidade. Se não podemos falar do que acreditamos e do que somos, pra que essa liberdade então?

Querem afirmação e aceitação das identidades hoje em dia? Pois bem! Sou cristã, preocupe-se em me aceitar como sou, e não em discutir "secularmente" minha religião/estilo de vida!


Em Cristo,

Débora Silva Costa

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em quem o cristão deve votar?

Em tempo de eleição essa é uma das dúvidas mais comuns em nossas igrejas. Isto porque, irmãos em Cristo que temem ao Senhor e que desejam fazer o melhor para o seu país, acreditam que os seus pastores receberam de Deus orientações claras quanto àqueles que deverão governar a nação. Nesta perspectiva, buscam em seus líderes orientações em quem votar. No entanto, o que talvez muitos não saibam, é que do ponto de vista ético e cristão, o pastor não possui o direito de manipular o voto de ninguém. Todavia, em virtude de desejos escusos, alguns pastores inescrupulosos, imbuídos de messianismo politico fajuto, enganam o povo, determinando ao rebanho o nome daqueles que deverão ser votados.

Caro leitor, como disse anteriormente, não creio na manipulação religiosa em nome de Deus, não acredito num messianismo onde a utopia de um mundo perfeito se constrói a partir do momento em que crentes são eleitos, nem tampouco comercializo o rebanho de Cristo, vendendo-o por interesses escusos a políticos inescrupulosos.

Diante do exposto gostaria de reproduzir aqui o DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO que foi defendido na década de 90 pela Associação Evangélica Brasileira:

I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;

V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um "despachante" de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros "trocos", ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais "acertos" impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a "recompensa" seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os "reinos deste mundo" por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de "boatos" do tipo: "O candidato tal é ateu"; ou: "O fulano vai fechar as igrejas"; ou: "O sicrano não vai dar nada para os evangélicos"; ou ainda: "O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos". É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: "o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto", é compreensível que dê um "voto de confiança" a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.


Soli Deo Gloria,

Renato Vargens


Original: QUEM FOI MESMO AQUELE QUE DEUS DISSE EM QUEM DEVEMOS VOTAR?

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de internet e novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem anterior eu trouxe a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na postagem de hoje teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - A PRÁTICA DO DISCERNIMENTO

Seria um erro supor que as guerras contra Harry Potter representaram uma luta de todos os cristãos conservadores contra educadores liberais e fãs. Enquanto alguns querem simplesmente reintroduzir as autoridades antigas e fortalecer as instituições que estão sendo desafiadas por essa cultura mais participativa, outros querem ajudar as crianças a aprender a fazer julgamentos sobre o conteúdo de mídia. Muitos grupos cristãos defenderam os livros, apresentando o conceito de "discernimento" como uma alternativa ao discurso da guerra cultural. 

Connie Neal, autora de "What's a Christian to do with Harry Potter?" (em português, "Os segredos espirituais de Harry Potter"), imaginou essa alternativa como a "construção de um muro" para proteger as crianças de influências externas ou uma "blindagem", de modo que elas possam trazer os seus próprios valores quando se deparam com a cultura popular. Neal observa que "restringir a liberdade pode incitar a curiosidade e rebeldia, levando aquele que você pretende proteger a ultrapassar a barreira de proteção para ver o que o que está perdendo... Mesmo se fosse possível manter as crianças separadas de todas as influências potencialmente perigosas, isso as impediria de enfrentar situações onde poderiam desenvolver a maturidade para evitar esses perigos sozinhas." Em vez disso, Neal defende que é preciso dar às crianças habilidades de letramento midiático, ensinando-lhes a avaliar e interpretar a cultura popular dentro de um contexto cristão. 

Um dos grupos de discernimento, Ransom Fellowship, define o discernimento como "a capacidade, pela graça de Deus, de traçar criativamente um caminho honrado em meio ao labirinto de escolhas e opções com as quais nos deparamos, mesmo quando estamos diante de situações e questões que não são especificamente mencionadas nas Escrituras." O movimento do discernimento inspira-se em uma série de passagens bíblicas que falam de pessoas que mantiveram sua fé, mesmo quando viviam em uma terra estrangeira. O movimento argumenta que os cristãos estão vivendo em um "cativeiro moderno," mantendo e transmitindo a sua fé num contexto cada vez mais hostil. 

Em "Pop Culture: Why Bother?" ("Cultura Pop: Por que se preocupar?"), Denis Haack, o fundador e diretor do Ransom Fellowship, argumenta que o envolvimento coma cultura popular, em vez do distanciamento, tem benefícios importantes. Exercícios de discernimento podem ajudar os cristãos a desenvolver uma maior compreensão do seu próprio sistema de valores, podem fornecer insights sobre a visão de mundo dos "não crentes", e pode oferecer uma oportunidade significativa para troca entre cristãos e não-cristãos. De acordo com Haack, "Se quisermos compreender aqueles que não compartilham nossas convicções mais profundas, devemos tentar compreender aquilo em que eles acreditam, porque eles acreditam, e como essas crenças operam na vida cotidiana." 

O site do grupo fornece argumentos e conselhos sobre como estimular o letramento midiático dentro de um contexto explicitamente religioso, encontrando ideias que valem a pena ser discutidas em obras comerciais como tão diversas como "Bruce Almighty" ("Todo Poderoso", 2003), "Cold Mountain" (2003), e Lord of the Rings ("Senhor dos Anéis", 2001) (...) O site é muito explícito quanto às eventuais discordâncias entre os próprios cristãos a respeito do que vale ou não a pena considerar nessas obras, mas acrescenta que o processo de discussão sobre as diferenças concentra a energia em assuntos espirituais e ajuda a todos os envolvidos para se tornarem mais hábeis em aplicar e defender sua fé. 

Enquanto alguns conservadores culturais interpretam a imersividade na cultura popular contemporânea como uma armadilha que enreda os jovens em um perigoso mundo de fantasias, outros dentro do movimento do discernimento têm promovido o uso de jogos de interpretação e de computador como espaços para explorar e debater questões morais. 
(...) 
Muitos líderes do movimento discernimento enaltecem menos os aspectos "nerds e esquisitos" da cultura popular, mas reconhecem o valor da apropriação e reavaliação de obras da cultura popular. Muitos defensores do discernimento consideram os livros de Harry Potter como a oportunidade perfeita para os pais conversarem com seus filhos sobre os desafios de preservar seus valores em uma sociedade secular. Haack explica: 

"A verdade é ensinada aqui, verdade que vale a pena ser refletida e discutida, e, embora seja ensinada em um mundo imaginário, ela se aplica à realidade também... O mundo em que Harry Potter vive é um mundo de ordem moral, onde as ideias e escolhas têm conseqüências, onde o bem e o mal são claramente distintos, onde o mal é igualmente desumano e destrutivo, e onde a morte é dolorosamente real .... Mesmo se tudo o que os críticos dizem fosse verdade, a atitude defensiva de suas recomendações é francamente constrangedora. Se os livros de Harry Potter fossem uma introdução ao ocultismo, a igreja deveria aproveitar a oportunidade para lê-los e discuti-los. O neopaganismo é uma realidade crescente neste mundo pós-cristão, e as nossas crianças precisam ser capazes de enfrentar esse desafio com serena confiança no Evangelho. Elas precisam saber a diferença entre a literatura de fantasia e ocultismo. E precisam ver os mais velhos agindo com integridade, e não com escândalo."
(...) 
Connie Neal pede aos pais cristãos que considerem o que Jesus faria se confrontado com essas histórias: 

"Jesus talvez lesse as histórias de Harry Potter e as usasse como pontos de partida para suas parábola... Assim como Jesus deu atenção às necessidades físicas dos outros, ele talvez desse atenção às necessidades terrenas reveladas nas vidas daqueles que se identificam com os personagens de Harry Potter. Ele talvez conversasse sobre Harry Potter e ouvisse as coisas com as quais eles mais se identificam: negligência, pobreza, discriminação, abuso, medos, sonhos, as pressões para se ajustarem, o desejo de realizar algo na vida, ou o stress da escola. Então ele iria mostrar-lhes como lidar com tais aspectos reais de suas vidas."


Ao invés de proibir conteúdos que não se ajustam completamente à sua visão de mundo, o movimento do discernimento ensina às crianças e aos pais como ler esses livros de forma crítica, como atribuir-lhes novos significados, e como usá-los como pontos de acesso a perspectivas espirituais alternativas. 

Em vez de bloquear a intertextualidade, que é tão profusa na era de narrativa transmídia, Neal, Haack, e outros líderes do discernimento estão procurando maneiras de aproveitar a força da intertextualidade. Eles fornecem listas de leitura para os pais que querem utilizar o interesse de seus filhos em Harry Potter como um ponto de acesso à fantasia cristã. Vários grupos de discernimento publicaram guias de estudo para acompanhar os livros e os filmes de Harry Potter, com "perguntas de sondagem", destinadas a explorar as escolhas morais feitas pelos personagens, complementadas com versículos bíblicos que sugerem como as mesmas decisões são enfrentadas dentro da tradição cristã. Os guias salientam, por exemplo, o momento em que a mãe de Harry sacrifica a vida para protegê-lo como um modelo positivo de amor cristão, ou apontam as escolhas morais deturpadas, que levaram à criação da Pedra Filosofal, como um exemplo de pecado. Enquanto os cristãos anti-Harry Potter querem proteger as crianças contra a exposição a esses livros perigosos, o movimento do discernimento enfatiza a ação dos consumidores para se apropriar e transformar o conteúdo de mídia.


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (1): teorias da conspiração


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem de hoje trago a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na próxima postagem teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO
Mais do que qualquer outro livro nos últimos anos, os livros de Harry Potter estiveram no centro de polêmicas envolvendo livros e bibliotecas. Em 2002, eles foram alvos de mais de 500 “contestações” em escolas e bibliotecas de todo o país (Estados Unidos). Em Lawrence, Kansas, por exemplo, a biblioteca pública de Oskaloosa foi obrigada a cancelar os planos de uma “aula especial de Hogwarts” para “jovens aspirantes a bruxas e magos” porque os pais da comunidade pensaram que a biblioteca estava tentando recrutar crianças para adorar o diabo. 
(...) 
Em Alamogordo, Novo México, a Igreja Comunidade de Cristo (Christ Cummunity Church) queimou mais de 30 livros de Harry Potter, além de DVDs de Branca de Neve e os Sete anões (1937), da Disney, CDs do Eminem e romances de Stephen King. Jack Brock, o pastor da igreja, justificou a queima de livros alegando que Harry Potter, livro que admitiu não ter lido, era “uma obra-prima de artimanha demoníaca” e um manual de instruções para a arte das trevas. (...) Outro pastor, reverendo Lori Jo Scheppers, afirmou que as crianças expostas a Harry Potter teriam “uma boa chance de se tornarem como aqueles garotos de Columbine”. 
(...)
O evangelista Phil Arms, por exemplo, descreve Harry Potter e Pokémon (1998) como “atrações fatais”, atraindo crianças para o mundo das ciências ocultas: “mais cedo ou mais tarde todos os que entram no mundo de Harry Potter devem enfrentar a verdadeira face por trás do véu. E quando o fazem, descobrem o que todos aqueles que brincam com o mal descobrem, ou seja, embora talvez só estivessem brincando, o Diabo sempre joga pra valer.” Os reformadores morais citam  o exemplo das crianças que se vestem como Harry Potter, usam chapéu de bruxo para imitar o ritual de iniciação do livro ou desenham raios na testa para reproduzir a cicatriz de Harry, como prova de que eles não estão apenas lendo os livros, mas começando a participar de atividades de ocultismo. 
(...)
Phil Arms e seus aliados temem que a imersão em universos ficcionais possa tornar-se uma forma de "projeção astral", ou que, quando proferimos palavras mágicas, as forças demoníacas que invocamos não percebem, necessariamente, que estamos apenas fingindo. Esses críticos conservadores advertem que as experiências atraentes da cultura popular podem se sobrepor a experiências do mundo real até que as crianças já não possam mais distinguir entre fato e fantasia. Para alguns, este nível de envolvimento é o suficiente para colocar os livros de Harry Potter sob suspeita: “Esses livros são lidos repetidamente por crianças da mesma maneira que a Bíblia deveria ser lida.” 
(...)
Outro evangelista, Berit Kjos, nos adverte: "O principal produto comercializado através deste filme é um sistema de crença que entra em choque com tudo o que Deus nos oferece para a nossa paz e segurança. Esta ideologia pagã se completa com figurinhas, jogos de computador, roupas e enfeites estampados com os símbolos de Harry Potter, action figures, bonecas fofinhas e fitas de áudio que podem manter a mente das crianças concentrada nas ciências ocultas o dia inteiro. Mas aos olhos de Deus, essa parafernália se torna pouco mais do que uma armadilha, uma porta de entrada para um envolvimento mais profundo com o ocultismo."

Eles afirmam ainda que Rowling faz mais de sessenta referências específicas nos quatro primeiros livros a práticas reais de ocultismo e à pessoas ligadas à história da alquimia e bruxaria. (...) Alguns críticos fundamentalistas (fundamentalismo é um rótulo controverso, mas manteremos aqui para reproduzir com exatidão o pensamento original do autor) interpretam o raio na testa de Harry como a "marca da besta", ou descrevem Voldemort como "aquele sem nome", um bruxo anticristo, ambos profetizados no livro Apocalipse. Eles alegam que as crianças que procuram informações adicionais serão atraídos para obras pagãs que prometem mais conhecimento e poder. 
(...)
Alguns ativistas encaram os livros como um enfraquecimento da influência cristã na cultura, em favor de um novo espiritualismo global. Kjos alerta que "os livros de Harry Potter não seriam socialmente aceitos há 50 anos. O clima cultural atual - tolerante com o entretenimento ocultista e intolerante com o cristianismo bíblico - foi planejado um século atrás." (...) Para alcançar um mercado global, afirmam os críticos cristãos, o capitalismo americano deve remover os últimos vestígios da tradição judaico-cristã e, para promover o consumismo, deve destruir toda a resistência à tentação. Aspectos da fé pagã e da fé oriental estão entrando salas de aula de uma forma secularizada (...) enquanto o cristianismo permanece bloqueado é excluído pelos defensores da separação entre igreja e estado. Como consequência os livros de Harry Potter terão efeitos muito diversos dos de, digamos, O Mágico de Oz (1900), lido pelas crianças dentro de uma cultura profundamente cristã. 
(...) 
Tentando conseguir apoio público, (educadores) criaram uma organização, "Trouxas de Harry Potter" (Muggles for Harry Potter), o que iria atrair o interesse nacional e internacional dos fãs. 
(...) O grupo ficou conhecido por conter as tentativas nacionais dos fundamentalistas de proibir os livros nas escolas. (...) A organização procurou ensinar jovens leitores dos livros de Harry Potter sobre a importância de defender a liberdade de expressão. A organização, que mais tarde mudou seu nome para kid-SPEAK!, criou fóruns online onde as crianças  poderiam compartilhar suas opiniões com os outros sobre esta e outras questões de censura. Por exemplo, Jaclyn uma estudante da sétima série, escreveu esta resposta à notícia de que um ministro fundamentalista tinha picotado cópias de Harry Potter quando os bombeiros se recusaram a conceder-lhe uma licença para ter queimar os livros: 

"Reverendo Taylor, anfitrião da Jesus Party, deveria analisar melhor antes de julgar. As crianças estão lendo esses livros e descobrir que há mais coisas na vida do que ir à escola. O que eles estão descobrindo, exatamente? Sua imaginação. O Reverendo Doug Taylor percebe o que está fazendo? As crianças estão lutando por seus direitos garantidos pela Primeira Emenda, mas eles também lutam por sua imaginação - a única coisa que faz uma pessoa ser diferente dos outros. Ao vê-lo retalhar os livros, estamos vendo, quase simbolicamente, o retalhamento das nossas imaginações. As crianças gostam dos livros porque querem viver naquele mundo, querem ver a magia, e não um mágico fajuto tirar um coelho da cartola. (...) Mas elas sabem que Hogwarts não é real e que Harry Potter não existe."
(...) As crianças são forçadas a renunciar à fantasia a fim de defender o próprio direito de possuí-la. (...) Mas os cristãos conservadores são apenas o grupo mais visível de uma ampla gama de grupos, cada um citando suas próprias preocupações ideológicas, em reação a uma mudança no paradigma das mídias. Cristãos anti-Harry Potter compartilham muitas preocupações com outros grupos de reformadores, associando o receio do poder persuasivo da publicidade ao receio do aspecto demoníaco de imersão, explorando, em suas críticas ao espiritualismo global, os anseios sobre o consumismo e o capitalismo multinacional. (...) 

Onde alguns vêem um mundo mais livre de gatekeepers (pessoas/instituições que controlam o acesso a algo, no caso, às informações e produtos culturais), eles (os conservadores) vêem um mundo em que as comportas foram abertas e ninguém pode controlar o fluxo de "esgoto" em suas casas. Esses grupos querem reivindicar uma reação coletiva aos problemas que certos pais não conseguem enfrentar sozinhos. (...) Como protesta Michael O'Brien, "Nossa cultura nos impele continuamente a baixar a guarda, a fazer julgamentos apressados que parecem mais fáceis, pois reduzem a tensão da vigilância. O ritmo acelerado e o grande volume de consumo que a cultura moderna parece exigir de nós, torna o discernimento genuíno mais difícil."


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

Continuação: O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dor de cabeça


"Ai que dor de cabeça!", resmunguei na volta pra casa depois do lanche pós-culto. Paramos na farmácia e desci pra comprar um remédio.

Lá fora um rapaz mal vestido em pé na porta e no meio da chuva estende acanhadamente a mão e com o canto da boca deixa escapar o pedido: "Moça, uma ajuda, por favor!" Na pressa, vai a resposta automática: "Não tenho!".

Lá dentro um senhor bem arrumado em pé na fila do caixa estende firme a mão com seu cartão, e na outra mão segura uma lata de leite dessas mais caras. Indignado, deixa escapar uma reclamação ao homem no caixa: "E esse rapaz que fica aí fora? Toda vez que venho aqui ele está. E sempre com a mesma desculpa: que está com fome. Uma vez dei dez reais, e agora ele está aí pedindo de novo. Ele me enganou."

Lá do outro lado o caixa fardado sentado estende a mão com a maquinhinha do cartão de crédito, e responde com igual indignação: "Pois é, todo sando dia ele está aí, parece que a fome dele é insaciável. Fica enganando todo mundo."

Lá atrás eu em pé esperando com salto alto nos pés, uma dor aguda na cabeça e o remédio na mão... eu que geralmente sou de ficar calada, não me segurei: "Desculpe, mas não acho que ele está enganando ninguém, não. Até onde eu sei a fome é mesmo insaciável. Se ele estivesse pedindo outra coisa, sei lá, dinheiro pra comprar uma passagem ou um remédio, poderia estar mesmo enganando. Mas ele precisa de dinheiro todos os dias é pra comer, assim como todos nós precisamos."

"Ah, mas ele é desocupado mesmo, dona. Esse aí é jovem e forte, não trabalha porque não quer", defendeu-se o caixa. "Minha jovem, quero ver se eu oferecesse um emprego a ele se ele ia aceitar", propôs o senhor. E eu retruquei: "O senhor vai oferecer mesmo, ou está só enganando? Porque vamos admitir: quem é que tem mesmo coragem de dar emprego a uma pessoa como ele? Não tem estudo, não tem onde morar, não tem uma roupa pra vestir, não tem onde tomar banho, não tem nem o que comer... Quem é que confiaria numa pessoa assim?"

Não quero aqui entrar no mérito de quem está certo e errado como se fosse possível dividir a sociedade em vilões e mocinhos. Mas é perceptível que há um erro na história, e sabe onde ele está? Em todos nós. Sim! Em mim, naquele senhor, no caixa e no mendigo. Na humanidade.

"A culpa é do sistema" pode soar impessoal e covarde, uma tentativa de jogar a culpa em outro, nesse caso no "Grande Outro", essa ordem secreta das coisas. Mas basta refletir um pouco pra perceber que quem sustenta e legitima esse sistema aparentemente todo-poderoso somos nós mesmos, os indivíduos débeis e comuns. 

O mendigo representa tudo aquilo que nós mais evitamos. É a escória da sociedade, o consumidor falho, o marginalizado, o fracassado na vida, o não-adaptado ao sistema e, portanto, justamente punido. Entendo o seu lado, mas não o defendo, pois é aquele que já se conformou com sua vida fora das regras e que muitas vezes tenta se justificar como uma mera vítima do sistema. "Minha vida é difícil, eu não tenho nada."

O senhor e o caixa representam tudo aquilo que nós mais desejamos. É o cidadão exemplar, o consumidor modelo, o trabalhador, o que luta pra vencer na vida, é o que segue à risca o sistema e, portanto, clama por justiça. Entendo o lado deles, e por isso não os condeno, pois são aqueles que se indignam em ver que precisam trabalhar pra ter o pão de cada dia enquanto o outro "não faz nada". "Minha vida é difícil, eu pago meus impostos."

A questão é: Quando vamos parar de nos fazer de vítimas, de jogar a culpa no outro e assumir nossa própria responsabilidade? Em vez de pensar: "Dar esmola não ajuda!" porque não pensar: "E deixar de dar esmola ajuda?"

E o que Cristo faria? O que Cristo nos ensina sobre ajudar ao próximo sem esperar recompensa ou mesmo mudança da parte do outro? Como Cristo é um exemplo pra nós de amor aos injustiçados (que sofrem injustiça) e também aos injustos (que não praticam a justiça)? Qual dessas palavras de Deus está na Bíblia: "Faz por ti que eu te ajudarei" ou "Não temas, eu te ajudo"?

"Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido." Lucas 19:10
...

A discussão encerrou-se ali. O senhor depois de pagar a conta foi lá fora pra dizer ao mendigo algumas palavras, espero que tenha sido mesmo pra oferecer um emprego. A chuva ficou mais forte. Entrei no carro e lá dentro meus amigos esperavam curiosos: "O que você estava conversando com aquele senhor? Você sabe quem é ele? Ele já foi presbítero lá na igreja..."

Ai que dor de cabeça!



Em Cristo,
Débora Silva Costa.

sábado, 31 de maio de 2014

Injustiça nossa de cada dia



Noite de sexta-feira, lá se vai mais uma semana de trabalho duro. Limpeza de supermercado nunca foi o sonho de ninguém. Lavar a sujeira que é dos outros, tarefa ingrata e sem fim. Todo dia tanta gente vem e vai, ninguém sente minha presença. Minha falta, sim, é sempre sentida, assim que algo fica fora do lugar. Nada de “obrigado”, pois faço nada mais que a minha obrigação. Em vez disso recebo o salário, o mínimo pra viver honestamente. Vida difícil, trabalho digno, descanso merecido.

Catraca de ônibus, portal que conduz a mim e a tantos brasileiros de volta pra nossas casas. O maldito congestionamento vai levando embora as horas de folga. O jeito é ter paciência, esperar, agradecer. Alegria de pobre é achar um cantinho pra sentar. Lá no fundo do ônibus é escuro, mas já me acostumei a ser invisível. Banco duro, espaço apertado, pequeno cochilo.

Banco da frente, duas moças entre risos e conversas. Estudantes da faculdade, trabalho duro também, mas que todo mundo sonha em ter. Adquirir conhecimentos para si, tarefa gratificante e de futuro promissor. Tão jovens, mas já têm tantas coisas que eu, já com meus cabelos brancos, jamais tive e terei. Que dirá daqui a uns anos, quando receberem aquele canudo. Vão ser alguém e vão ganhar bem, o bastante pra comprar lá no supermercado. E vão passar por mim e deixar a sujeira pra trás. Futuro da nação, país sem pobreza, Brasil de todos.

De repente uma das moças olha pra trás. Pra mim? Sim, ela está olhando mesmo pra mim. Olha só, eu fui notado. Ela faz uma cara de preocupação e fala comigo: “Moço, por favor, devolva meu celular. Moço, é sério, eu tô pedindo a você meu celular. Me dá licença, mas eu quero olhar o seu bolso. Me mostre o outro bolso, por favor. Desculpe, mas quero ver sua bolsa também. Moço, onde está meu celular?”

Cada frase dita era como uma faca fria e amolada penetrando meu peito. E mesmo que ela insistisse em usar as palavras mágicas “com licença”, “por favor” e “desculpa”, nada disso anestesiava a dor que eu sentia. Depois de alguns segundos de inércia, consegui formular minha fraca defesa: “Moça, eu não sou ladrão.” Mas ela não dava ouvidos e continuava a me cobrar. Eu insistia: “Moça, aqui no meu bolso só tem meu celular, pode olhar, eu não tenho nada a esconder.” Ela fazia uma cara de pena de mim, mas mesmo assim continuava pedindo. E eu implorava: “Moça, eu sou um trabalhador honesto, toda semana no supermercado eu acho um monte de celular e sempre devolvo, porque eu iria roubar logo o seu?”

E todo mundo em volta de repente prestou atenção em mim. Fui notado enfim, mas não da maneira que eu sonhava. Só quem já sofreu na pele sabe como é ruim esse sentimento de ser acusado por algo que não fez. Indignação, vontade de gritar, exigir respeito, meus direitos... Pra quê? O estrago já foi feito. Além do mais, que culpa tem a moça, né? Ela só viu o que qualquer um veria, que de todas as pessoas que estavam ali perto, só eu realmente tinha "cara de ladrão" (leia-se, pobre). E quem nunca julgou alguém pelas aparências que atire a primeira pedra. Mas a culpa é de quem, então?

~

Esta crônica é baseada em fatos reais, a respeito de uma situação que presenciei ontem (30 de maio de 2014) quando eu voltava da faculdade. Eu estava sentada ao lado desse senhor no momento em que tudo aconteceu, e eu era a pessoa que estava mais próxima à moça e que, portanto, teria tido mais facilidade de roubá-la, mas ela preferiu acusar aquele homem. Graças a Deus a maioria das pessoas que estavam ali partiu em defesa dele, mas é triste que esse tipo de coisa aconteça. A moça por fim encontrou o celular dentro de sua própria bolsa e pediu desculpas ao homem, embora não existam palavras que possam apagar tal constrangimento. Resolvi escrever esse texto não apenas porque a situação me comoveu bastante, mas também porque me deu o que pensar:

- Por que deixamos as coisas que possuímos terem mais valor que a dignidade das pessoas?
- Por que agimos por impulso no momento da emoção sem nos preocuparmos se estaremos ferindo os sentimentos de alguém?
- Por que somos rápidos em fazer julgamentos que são, na maioria das vezes, injustos?
- Por que somos tão obcecados pela aparência, mesmo sabendo que na maioria das vezes ela não corresponde à essência?
- Por que nos esquecemos de que qualquer pessoa tem a mesma capacidade de fazer o mal (como roubar, por exemplo), independente de sua educação, classe social, aparência física, etc.?

E, por fim, quero lembrar a história de um outro injustiçado. Que era um cidadão igualmente humilde, trabalhador, honesto. Que vivia para “limpar a barra” das pessoas. Que sentiu na pele o que é sofrer, o que é a pobreza e a injustiça deste mundo. Que mesmo assim, mantinha a paciência, a brandura, o silêncio e a gratidão a Deus. Mas que sofreu a maior injustiça de todas: foi acusado pelos erros de todos os homens (eu e você, inclusive), e, mesmo sendo inocente, recebeu pena de morte.

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus.” 1 Pedro 3:18

Que lembrar o exemplo dele nos faça mais justos, amorosos, e humildes, mesmo diante das injustiças de cada dia.


Em Cristo,
Débora Silva Costa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma crítica à crítica



Final de 2013, como se não bastasse a agitação típica de fim de ano, junte a isso o stress das apresentações de monografias, e a ansiedade das últimas semanas para o fim de quatro anos de curso. Foi nesse clima tenso que uma polêmica mobilizou toda a comunidade acadêmica, e só foi solucionada graças à capacidade conciliadora do diálogo. Sem entrar aqui em detalhes, o que importa é que ao final este episódio trouxe um grande aprendizado pra mim: o exercício da crítica é essencial para melhorar como pessoa.

Sim, isso mesmo. Em meio a tanta discussão, foi o comentário de um professor que trouxe lucidez àquele polêmico debate (não foram estas as palavras exatas que ele usou, mas a ideia é a mesma): “A universidade é o ambiente por excelência da crítica. Não podemos simplesmente parar de criticar por qualquer que seja o motivo, porque é a partir da crítica que se desenvolve o conhecimento humano. Sem crítica a universidade não tem razão de existir.”

De fato, a crítica é uma atividade essencial na universidade e em todos os âmbitos da vida humana, mas que infelizmente tem sido negligenciada e até mesmo condenada. Chega a ser algo paradoxo que a crítica seja assim tão criticada. Dedico este texto a trazer um olhar crítico sobre as principais críticas contra a crítica, e alternativas aos argumentos incoerentes. É uma forma também de desabafo, por muitas vezes ter sido desencorajada a exercer o pensamento crítico, principalmente no ambiente da igreja.

1.    “Não critique se você não pode fazer algo melhor.” Sincero, mas errado. Imagine só, se ninguém pudesse criticar um filme, um livro, uma música ou qualquer coisa, só porque não sabe fazer algo melhor! Claro que o ideal seria que o ato de criticar nos levasse sempre a um futuro melhor que o presente. Mas a incapacidade de melhorar algo não diminui a relevância da crítica feita. Pelo contrário, a crítica se torna ainda mais efetiva, pois atinge tanto o criticado como também o crítico, ambos são levados a fazer uma autocrítica e melhorarem no que for necessário. Em vez disso eu diria: “Tem o direito de criticar aquele que quer ajudar a construir algo melhor.”

2.    “Quem é você pra criticar?” Esse argumento é usado para destruir a autoridade do crítico. Como se a permissão para exercer a crítica só fosse dada àqueles que tivessem uma vida moralmente correta em todos os aspectos (perfeita), sob o risco de sua crítica se tornar hipocrisia. Ora, isso é impossível! Quem é que nunca errou, e assim tornou-se também passível de críticas? Não ser perfeito não me impede de criticar o erro. Muitos usam até aquele versículo, totalmente fora de contexto: "Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” (Mt 7:1) Mas esquecem da segunda parte: “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados.” (Mt 7:2) Ou seja, não há aqui uma proibição à crítica, mas apenas um alerta: “Você pode criticar desde que esteja também aberto a receber críticas.”

3.    “Quem critica é porque não faz nada.” Imagino um crítico de cinema, economia ou política, uma pessoa que por muitos anos investiu tempo, dinheiro e inteligência para que pudesse exercer com credibilidade e responsabilidade sua profissão de “formador de opinião”, sendo acusado de vagabundo e desocupado! É cômico, para não dizer trágico. É um exemplo extremo, mas o que percebo é que este comentário tem sido usado repetida e levianamente. Não estou negando que há realmente pessoas que acham confortável ficarem sentadas e ditando ordens, corrigindo no trabalho alheio problemas que não existiriam se elas estivessem ali também cooperando. Mas há muitas situações em que o erro se tornou tão normal, que já não é mais facilmente corrigível, por mais esforço que se possa empregar. E nem por isso se deve ficar calado assistindo o desastre. “Quando não há nada que você possa fazer para ajudar a mudar, sua crítica já é um importante passo para a mudança.”

4.    “Quem critica é porque se acha superior.” Essa é clássica. E sempre vem acompanhada de uma expressão de orgulho ferido, que apenas demonstra que às vezes há na verdade é um senso de inferioridade no sujeito criticado, que por não saber receber ou responder uma crítica já assume o papel de coitado. É óbvio que o crítico também pode vir a ser orgulhoso e arrogante, mas nem sempre. O que estou dizendo aqui é que a soberba e a superioridade residem não na crítica em si, mas muito mais na forma de criticar ou de acolher a crítica. A crítica saudável deve ser realizada (e recepcionada) com discrição (Mt 18:15), santidade (Mt 7:1-5), humildade e submissão (Fp 2:3), mansidão e autoavaliação (Gl 6:1) e respeito (1 Pe 3:15). “Tanto o crítico como o criticado devem ter humildade e amor para reconhecerem mutuamente seus defeitos e qualidades.”

5.     “A crítica destrói relacionamentos e traz desunião.” Certa vez, após eu ter discordado de um assunto na igreja, me entristeci ao ouvir o seguinte comentário: “Quem questiona está sendo usado pelo diabo para implantar divisão no meio do povo de Deus.” Ao contrário do que esta pessoa pensava, a união verdadeira não suplanta as individualidades. O divergir, o criticar e o questionar apenas revelam que a igreja é uma comunidade de pessoas com opiniões diferentes, mas todas unidas por um mesmo propósito. E graças a Deus por isso! Que monótona seria uma igreja, uma universidade, uma família, uma empresa, enfim, um mundo onde todos pensassem do mesmo jeito. Indo na mesma linha do argumento anterior, podemos perceber que, na verdade: “A crítica quando bem feita e bem recebida tem a capacidade de melhorar os relacionamentos.”

6.    “A ideia da crítica é somente desconstruir.” Sim e não. ‘Sim’, porque a crítica realmente desfaz pensamentos, quebra paradigmas e analisa argumentos. Neste sentido, a crítica é negativa, porque é a negação de uma ideia. ‘Não’, porque a crítica também pode (e deve) ser positiva, quando bem utilizada. Quem já estudou dialética sabe o que é tese, antítese e síntese. Este é o modelo da crítica ideal: avaliar a tese (construção), desenvolver uma antítese (descontrução) e produzir uma síntese (reconstrução). Não é errado ‘desconstruir’. Errado é ‘destruir’. Ou seja, a crítica não é um fim em si mesma, não se pode criticar por criticar. É preciso criticar e propor algo melhor. “A ideia da crítica é que toda desconstrução seja (re)construtiva.”

7.     “Existem algumas verdades que não precisam ser criticadas.” Sim, eu acredito em verdades absolutas. Mas o fato de serem absolutas não quer dizer que não devam jamais ser criticadas. Alguém certa vez me disse: “Você não deve criticar aquilo em que acredita. Quem acredita não questiona, apenas aceita.” É isso mesmo, produção? Primeiro: isso é totalmente irracional. Se algo é absolutamente verdade, então se manterá firme não importa quantas críticas lhe sejam feitas. Claro que nunca encontraremos respostas para tudo. Mas podemos encontrar um sistema de ideias (cosmovisão) que explique de maneira mais coerente o maior número de questionamentos. E eu já encontrei essa cosmovisão: para mim é o cristianismo bíblico. Segundo: isso é totalmente antibíblico. Não podemos dividir o mundo em verdades sagradas e intocáveis de um lado e ideias profanas e questionáveis de outro, baseados puramente em critérios subjetivos e imperfeitos. A Bíblia nos recomenda, ao contrário, julgar todas as coisas e reter o que é bom. (I Ts 5:21) “Tenha sempre uma atitude de crítica positiva e construtiva em relação a tudo.”

8.    “Existem algumas pessoas que não devem ser criticadas.” Essa parece ser a mais absurda, mas infelizmente é uma das mais usadas. O erro do culto à personalidade é observado no mundo lá fora (ídolos, astros, ditadores, intelectuais, cientistas) e aqui dentro das igrejas, (apóstolos, bispos, pastores, levitas, papas). “Não critique o ungido do Senhor” (Sl 105:15) é o grito de muitas pessoas. Mas na verdade todos são imperfeitos e estão igualmente sujeitos a críticas. Sem falar que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.” Jesus é um exemplo para nós, pois mesmo sendo o único ser humano perfeito que já existiu, foi também alvo de críticas e jamais se esquivou delas, antes respondeu todas sempre de modo adequado. “Todas as pessoas são passíveis de crítica, até mesmo os críticos, pois ninguém é perfeito.”

9.     “A crítica é um mal que surge nas universidades e os jovens querem implantar na igreja.” Essa eu ouvi na escola dominical e foi de cortar o coração. Sim, há muitas coisas prejudiciais no ambiente universitário, das quais os jovens devem se proteger e se preparar para combater. Mas definitivamente o pensamento crítico não é uma delas. Até porque a crítica não surge na universidade (pelo contrário, é bem anterior a esta), o que acontece é que infelizmente muitos só têm o primeiro contato com ela quando ingressam no ensino superior. Não estou defendendo aqui o método histórico-crítico, o relativismo, o desconstrucionismo e todas essas outras baboseiras filosóficas que impregnam as universidades e insistem em tentar provar que o cristianismo é frágil à critica. Todos estes erraram, não pelo método errado, mas pelo pressuposto errado. Partiram da ideia de que crítica positiva é apenas aquela que no fim propõe algo novo. Não, a crítica deve propor o que é melhor. E se após ter passado pelo teste da crítica, for comprovado que o melhor é o que já existe, é com este que devemos ficar, mesmo que seja antigo, histórico e tradicional (como a Bíblia), mas é comprovadamente o mais confiável. “A crítica deve ser estimulada na igreja da mesma forma que o é na universidade, mas agora corretamente direcionada.”

10. “A Bíblia diz que é errado criticar.” Esta eu respondo usando as palavras do jornalista e teólogo Paulo Romeiro, extraídas do último capítulo do seu livro "Evangélicos em crise", com o tema “Discernir é preciso”:“Não é errado questionar. Quando Paulo chegou a Beréia, já possuía um currículo respeitado. (...) Nem por isso os crentes de Beréia foram ouvir o grande apóstolo pregar desprovidos de qualquer senso crítico. Mesmo tendo recebido a Palavra com avidez, na medida que Paulo e Silas ensinavam, eles examinavam as Escrituras para verificar se as informações eram corretas. E, ao invés de serem taxados de incrédulos ou duros de coração, Paulo disse que eles foram mais nobres do que os de Tessalônica (At 17.10-11). Que grande exemplo! (...) Está na hora de deixar de lado toda a ingenuidade e passar a desenvolver um ceticismo positivo e saudável. (...) O crescimento espiritual saudável depende do exercício constante do discernimento. O crente deve exercitar a sua consciência, os sentidos e a mente para saber a diferença entre a verdade e o erro.” “Criticar não é uma opção, mas um mandamento bíblico.”

Sei que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre crítica. A verdade é que tenho dois grandes problemas relacionados a isto. Primeiro: excesso de crítica, vivo insatisfeita e procurando defeitos nas coisas, ideias e pessoas ao meu redor. O erro aí está na soberba. Segundo: medo de críticas, vivo insegura e me achando despreparada para responder com argumentos lógicos e coerentes, e por isso às vezes evito expor a minha opinião. Desta vez o erro é a omissão. Mas, como já foi exposto anteriormente, não ser perfeita não me impede de criticar, até porque também estou aqui fazendo uma autocrítica. Que Deus me ajude a exercer com responsabilidade e amor a sua ordem de discernir, bem como me dê humildade e força para receber os julgamentos.

Critiquem-me.

Em Cristo,
Débora Silva Costa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Agradecimentos

Hoje é um dia muito importante para mim, o dia em que estarei me formando como jornalista na primeira turma da UFC Cariri. Depois de 4 anos de muito esforço, aprendizado e diversão, deixo aqui os meus agradecimentos.



Agradeço somente a Deus, porque sem ele nada do que foi feito se fez.

Agradeço a Deus que me deu vida em abundância e uma razão para existir.

Agradeço a Deus que fez com que eu e meu irmão nascêssemos e crescêssemos numa família digna e exemplar.

Agradeço a Deus que me deu um pai íntegro e piedoso, e uma mãe amorosa e humilde; pais que sempre se esforçaram para me ajudar dentro das suas capacidades.

Agradeço a Deus que me proporcionou ótimas oportunidades, sempre supriu minhas necessidades, e me abençoou infinitamente além do que tudo que pedi ou pensei.

Agradeço a Deus que me concedeu sabedoria, coragem e competência para executar todo trabalho que até hoje colocou em minhas mãos.

Agradeço a Deus que me preparou para ser uma boa cidadã, me dando a chance de ter educação gratuita e de qualidade em boas instituições de ensino, e me instruindo através de professores admiráveis, nos quais me inspiro para ser uma profissional ainda melhor.

Agradeço a Deus em especial pelos professores que tive o prazer de conhecer mais de perto, e que são muito mais que mestres, grandes amigos.

Agradeço a Deus que me conseguiu o melhor orientador, que fez muito mais do que devia, que me incentivou a estudar o que gosto e me guiou para um futuro promissor.

Agradeço a Deus que me presenteou com os melhores amigos, pessoas que considero como segunda família, que estiveram ao meu lado não apenas neste trabalho, mas também nas várias etapas da graduação, e em todos os momentos da minha vida.

Agradeço a Deus que me fez como um simples vaso de barro que carrega um tesouro dentro de si, para que a glória não fosse minha, mas do Deus que habita em mim.

“Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas; 
Glória, pois, a ele eternamente. Amém.” 
(Romanos 11:36)

Em Cristo,
Débora Silva Costa.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A alma generosa prosperará

Cena do filme “It’s a wonderful life”, 1946.  No quadro pode-se ler a frase: 
"All you can take with you is that which you've given away." 
(Tudo o que você pode levar consigo é o que você doar.)


Uma amiga disse certa vez que eu sou a filha preferida de Deus. Eu achei engraçado, mas ela tem toda razão: não canso de observar na minha vida livramentos e bênçãos numa quantidade e frequência absolutamente fora do normal. Todos os dias são demonstrações visíveis e indiscutíveis da Sua constante misericórdia (que é quando Deus não me dá o mal que eu mereço) e graça (que é quando Deus me dá o bem que eu não mereço). Neste último ano eu tenho sentido a providência divina tão de perto que posso até dizer como o salmista: “Meu Senhor, são muitos e formidáveis os milagres que tens feito para nós. (...) Gostaria de anunciar ao mundo as tuas grandes obras, mas elas são tantas que não haveria tempo!” (Sl 40:5)

Se eu fosse contabilizar as bênçãos por meio de porcentagem, digamos que cerca de 10% foram por pura “sorte” (digo, divina providência - Pv 16:33), umas 30% são fruto do meu “esforço pessoal” (ou melhor, Deus operando através da minha vida - Fp 2:13), e a imensa maioria, 60%, foi certamente pela generosidade dos amigos e irmãos ao meu redor. “Como pagar ao Senhor por todas as coisas boas que fez por mim?” (Sl 116.12) São tantas ajudas que tenho recebido, que me sinto até constrangida. Às vezes penso estar incomodando, dando trabalho, preocupação e despesas... já pensei até mesmo em recusar ou devolver algumas contribuições! 

A verdade é que isso não passa de uma forma mais discreta de orgulho. Orgulho sim, porque eu penso ser autossuficiente e não reconheço que preciso ser ajudada. Orgulho porque não suporto a ideia de ser devedora a alguém, de não ter meios de recompensar a ajuda. Orgulho porque no meu sentimento de inferioridade acho que não sou boa o suficiente para merecer tantos benefícios. E, pensando bem, é o orgulho que desde o início tem afastado a humanidade de Deus e impedido a ação dele.

A verdade é que Deus está bem vivo e atuante na vida de todos, embora muitas vezes Sua ação passe despercebida. E mesmo que ele seja poderoso o suficiente para fazer qualquer coisa surgir a partir do nada, ou mesmo fazer com que as dádivas caiam milagrosamente do céu, mas ele na maioria das vezes prefere trabalhar através de importantes instrumentos: nós, os seres humanos. A bondade, o altruísmo e a generosidade no coração das pessoas são características divinas, que Deus graciosamente quis compartilhar com a humanidade corrompida pela maldade. A generosidade é tão admirável que faz pessoas comuns expressarem com simples gestos coisas mais lindas que as mais sofisticadas palavras dos poetas. Além de tudo isto, a generosidade reflete o caráter de Deus e é uma das marcas de um cristão verdadeiro. “Mas se alguém que se considerar cristão possui dinheiro suficiente para viver bem, e vendo um irmão em necessidade e não o ajudar - como é que o amor de Deus pode estar nele?” (1 Jo 3:17)

Generosidade. Essa palavra me faz lembrar automaticamente de uma pessoa. Infelizmente não posso mencionar seu nome aqui. É tão discreto que foge dos holofotes. Não é alguém rico, poderoso ou famoso. É muito tímido para isso. Muitas vezes sequer é notado. Não é do tipo popular, mas aqueles poucos que são presenteados com sua amizade descobrem um companheiro sincero, compreensivo e bondoso. Embora não seja uma pessoa que expressa seus sentimentos facilmente e nem publicamente, ele possui outros meios de demonstrar afeição. E quando resolve tomar uma atitude, é capaz de deixar até as pessoas expressivas como eu completamente sem palavras. Ele é muito humilde para reconhecer (imagino até o que ele esteja pensando ao ler esse texto: "Nem tanto, mestre!"), mas a verdade é que o seu exemplo de vida me ensina e me inspira a ser alguém melhor.

Não preciso descrever aqui em detalhes cada uma das formas pelas quais ele já foi generoso comigo. Embora eu até gostaria de fazer isso. Mas o que importa de verdade não é o valor material, sentimental ou mesmo financeiro das suas contribuições. Tudo isso é relativo e passageiro. O que perdura são as muitas lições que aprendi com a sua generosidade. Eis algumas delas, vistas à luz da verdade bíblica:

Generosidade recusa louvores para si. Há um ano fui agraciada com um presente que considero o melhor que recebi até hoje, não pelo que custou, mas pelo que representou. Ganhei um computador novo, e não foi projeto do governo, Gugu na minha casa, Caminhão do Faustão ou outro concurso do tipo. Com mais de cinco anos de uso, meu computador antigo já estava nas últimas e me deixando na mão nos trabalhos. E eu não tinha condições de comprar outro. Minha alegria foi tão imensa, que tive vontade de gritar aos quatro cantos a bênção que tinha me acontecido. Com um simples gesto muitos problemas da minha vida foram solucionados. Qual não foi a minha surpresa, que o doador preferiu ser anônimo. “Não diga a ninguém não viu? Faz de conta que caiu do céu. Diz que um desconhecido deixou aí.” Ele pediu e eu entendi. "Quando vocês fizerem um favor a alguém, façam-no secretamente - não contem à sua mão esquerda aquilo que a sua mão direita está fazendo. E o seu Pai, que conhece todos os segredos, recompensará todos vocês." (Mt 6:3 e 4)

Generosidade não tem necessidade de receber algo em troca. Estamos cada vez mais acostumados a fazer só aquilo que de alguma forma nos trará algum benefício. Perda de tempo, atividades inúteis e desperdício de recursos são evitados a todo custo. Uma atitude altruísta nesse mundo tão competitivo soa como autodestrutiva. Mas a generosidade verdadeira é assim: é doar sem esperar recompensas, o que se torna ainda mais real quando a pessoa ajudada não tem qualquer condição de recompensar o benefício. Foi assim comigo, no momento em que ganhei aquele presente maravilhoso. Tudo o que eu pude dizer foi: “Um dia espero também poder te ajudar como está me ajudando.” E a resposta mais uma vez me deixou sem argumentos: “E as suas orações? Mais que isso? Orações têm mais poder.” Não havia qualquer interesse em pagamento. O ato generoso é um fim em si mesmo, não um meio para alcançar alguma coisa.

Generosidade é se sentir feliz por ajudar. No meio das suas grandes contribuições, tem umas pequeninas que me marcaram. Lembro-me de um teclado cor-de-rosa que ele me deu, quando o outro que eu tinha estava sem funcionar. Ele disse que é porque gostava de conversar comigo na internet, o que seria impossível sem um teclado. Engraçado, ele me fez um favor, mas deu a entender como se o benefício no fim das contas fosse para ele. Como Lucas, eu me lembro das palavras do Senhor Jesus que disse: "Há maior felicidade em dar do que em receber." (At 20:35) Generosidade e alegria devem estar sempre de mãos dadas. Deus também é contente em ser generoso conosco: "É uma grande felicidade para o Pai do céu dar o Reino a vocês." (Lc 12:32)

Generosidade não apenas ouve os problemas, mas faz o que pode para ajudar. Já perdi a conta de quantas vezes eu fui desabafar sobre alguma dificuldade que estava passando e depois disso ele se comprometeu a me ajudar. Como da vez que eu contei que minha bolsa estava atrasada há mais de um mês e não tinha mais dinheiro nem para a passagem de ônibus. Aí ele me aparece com dez reais, sendo que o valor da passagem nem é tão caro assim. Ou da vez que fui dizer quantos voos eu precisaria pegar para viajar até Manaus, aí ele foi e me comprou uma das passagens com as milhas aéreas que possuía. Esse tipo de situação tornou-se tão comum, que parecia como se eu estivesse contando os problemas para ele resolver. Isso me deixava constrangida de uma forma que resolvi parar de desabafar por uns tempos. Tolice a minha. Ele estava apenas tentando cumprir o que a Bíblia diz: “Nunca deixe de ajudar a quem precisa de ajuda, se você puder ajudar.” (Pv 3:27)

Generosidade é reconhecer que tem tudo que precisa. Todos os anos tenho uma certa dificuldade para presenteá-lo no seu aniversário. Como acrescentar algo a uma pessoa que já tem tudo? Não digo no sentido material, pois se pensarmos bem, não há nenhum ser humano que tenha tudo o que deseja. Nem mesmo a pessoa mais rica, pois ela sempre deseja mais do que tem. Falo aqui de outro tipo de riqueza. “Tenho tudo, no sentido imaterial”, foi o que ele me respondeu quando eu falei em dar um presente. Ele mesmo reconhece que é alguém abençoado por Deus e que nada lhe falta. E, de fato, só uma pessoa plenamente satisfeita tem condições de ser generosa. Só se doa o que se tem.

Generosidade é confiar na lei da semeadura. A vida e a Bíblia nos ensinam que “um homem sempre colherá justamente o produto da semente que ele plantou.” (Gl 6:7) Então ao ser generoso você pode estar absolutamente certo de esperar recompensa em Deus. “Quem reparte generosamente seus bens com outras pessoas se tornará cada vez mais rico. (...) Sim, a pessoa generosa terá sempre mais e mais; ela receberá de volta todo o bem que fez a outros.” (Pv 11:24 e 25) Como diz Falcão, digo, São Francisco em sua oração: “Porque é dando que se recebe.” Em muitas das vezes que fui ajudada tudo que eu pude responder a este amigo foi: “Que Deus te recompense! Que Deus te dê em dobro tudo que está fazendo por mim.” Porque eu estou certa de que, mesmo que eu nunca venha a ter condições de pagá-lo, Deus o fará melhor do que eu jamais poderia fazer. 

Generosidade é saber que não levará nada daqui. Uma das minhas frases favoritas, que nem me lembro de quem é nem onde li, diz assim: “Não é tolo quem entrega o que não pode reter para ganhar o que não pode perder.” Há nessa frase duas verdades importantes que se nós seguíssemos, seríamos pessoas bem mais generosas. Primeiro: nada do que temos é realmente nosso. Tudo vem de Deus, graciosamente e gratuitamente. Segundo: nada do que temos irá conosco quando morrermos. Tudo que é valioso aqui não vale nada na vida eterna. Olhando por esse ângulo, podemos ver que ser generoso é um bom negócio! Jesus deixou a dica: “Vendam o que têm e deem aos que estão em necessidade. Isto aumentará seus tesouros no céu, onde não há ladrão para roubar, nem traça para destruir.” (Lc 12:33)

E esta semana fui surpreendida novamente com sua generosidade. Mais uma vez este amigo tomou a atitude certa na hora certa, me trazendo alegria num dia especial e grande alívio no meio da dificuldade. Passei vários dias tentando encontrar palavras que expressassem minha gratidão. Consegui apenas isto. É pouco, mas tenho certeza de que ele nem esperava tanto. As pessoas mais próximas talvez até saibam de quem estou falando. Mas é melhor que continue assim, no anonimato. Para que a glória não seja minha e nem dele, mas daquele que é o maior generoso de todos, em nos conceder a dádiva da generosidade. As pessoas morrem, os momentos passam e as coisas acabam, mas as atitudes ficam para sempre!


Em Cristo,
Débora Silva Costa.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Se eu fosse uma crente “Frankenstein”

Hoje é o primeiro dia de 2014 e, como todas as viradas de ano, a gente sempre aproveita a oportunidade para fazer mudanças. Pois é, e até eu que neste ano nem queria prometer nada, acabei fazendo uma resolução: vou ressuscitar o meu blog. Já faz quase um ano inteiro que não posto nada aqui, o que revela muito de como está minha vida espiritual: abandonada, improdutiva e quase morta. Prometi sim, mas na mesma hora percebi a dificuldade da tarefa, vieram a preguiça, a falta de assunto, o sentimento de incapacidade, e pensei mais uma vez em adiar a ideia.

Mais foi no meio da arrumação da bagunça do meu quarto (mais uma resolução de 2014), jogando fora alguns papéis inúteis, que acabei encontrando um rascunho que fiz há muitos meses. Aquelas palavras foram escritas no meio de um período de insatisfação espiritual e revelam o meu desejo de ser melhor. Mesmo tendo sido escritas há algum tempo, elas ainda descrevem muito bem o que sinto e como estou no dia de hoje.

Diz assim: “A crente ‘Frankenstein’ que eu quero ser...”
Eu sei, Frankenstein não é o nome daquela criatura medonha, mas sim do seu criador louco. Mas me refiro aqui à ideia da (re)criação: “E se eu pudesse ser recriada, não de uma vez e por inteiro, mas feita de pequenos pedacinhos costurados um ao outro? Como eu gostaria de me parecer? De onde eu gostaria que fosse tirado cada pedacinho do meu ser?”

Escrevi sobre características que admiro e que desejo ter na minha vida, e que encontrei na vida dos cristãos ao meu redor. Embora estas pessoas também não sejam perfeitas e ainda tenham muito que melhorar, mas cada uma pra mim tem sido um exemplo em alguma área específica e possui pelo menos uma importante qualidade de um verdadeiro cristão. Geralmente as pessoas (inclusive eu) só gostam de criticar e ver defeitos, porque não observar as qualidades? 

A lista é grande... (em construção)
O compromisso com Deus da irmã Nilza.
A simpatia de Francineudo e Jucilane.
A coragem e ousadia do irmão Pinheiro.
A sabedoria e oratória de Misael.
O sentimento de justiça do irmão Ivo.
A dedicação à família da irmã Célia.
A virtude de Aline.
A oração fervorosa de Zélia.
A dedicação ao serviço cristão do irmão Chagas.
A paciência de Késia.
O cuidado de Higor.
A generosidade de Guilherme.
A lealdade de Thaís.
A animação de Yuna.
A liderança de Curió.
Os conselhos sábios de Ivone.
A sinceridade de Talyta.
A alegria sincera de Rosiane.
A firmeza de Brenda.
A fé inabalável de Camila Arrais.
A paixão pelo conhecimento de Avelar Júnior.
Os talentos de Gean.
A obediência de Matheus.
O carinho em servir do irmão Iralton.
O bom humor de Sheba.
A inocência do irmão José.
A força espiritual da irmã Maria.
A entrega total do missionário Fábio Brito.
O casamento feliz de Chagas e Suzana.
O amor às crianças de Jucyenne.
A meiguice de Ana Fabrícia.
A doçura de Raniele.
A emoção de Astéria.
A paz de espírito de Rayana.
A disposição de Filipe.
A pureza de Jennifer.
A vontade de evangelizar de Sarinha.
A vontade de aprender de Danrley.
A sensibilidade poética de Pedro Virgínio.
O dom de ensinar de Rose.
O primeiro amor de Márcia.
A simplicidade do irmão Deca.
O amor às Escrituras do Pastor Ernandes.
A inteligência do Pastor Michel.
O amor ao próximo de Dona Emília.
A beleza espiritual de Abigail.
A devoção de Pedro Gomes.
A humildade de Amanda Salustiano.
A piedade do meu pai.
A submissão da minha mãe.
A comunhão com Deus do meu irmão.
O CARÁTER DE CRISTO.
... e nada de mim.

“Que ele cresça e que eu diminua.” João 3:30


"Por isso que o modelo é Cristo. Devemos querer ser como Cristo, então como membros do corpo dele, cada um tem uma qualidade que pertence a ele. Não dá pra ter tudo estando só, mas como membros uns dos outros, somos um só com Cristo." (acréscimo de Aline Brito)



"Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que temos diferentes dons, segundo a graça que nos é dada."

Romanos 12:4-6



Em Cristo,
Débora Silva Costa.
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