terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma crítica à crítica



Final de 2013, como se não bastasse a agitação típica de fim de ano, junte a isso o stress das apresentações de monografias, e a ansiedade das últimas semanas para o fim de quatro anos de curso. Foi nesse clima tenso que uma polêmica mobilizou toda a comunidade acadêmica, e só foi solucionada graças à capacidade conciliadora do diálogo. Sem entrar aqui em detalhes, o que importa é que ao final este episódio trouxe um grande aprendizado pra mim: o exercício da crítica é essencial para melhorar como pessoa.

Sim, isso mesmo. Em meio a tanta discussão, foi o comentário de um professor que trouxe lucidez àquele polêmico debate (não foram estas as palavras exatas que ele usou, mas a ideia é a mesma): “A universidade é o ambiente por excelência da crítica. Não podemos simplesmente parar de criticar por qualquer que seja o motivo, porque é a partir da crítica que se desenvolve o conhecimento humano. Sem crítica a universidade não tem razão de existir.”

De fato, a crítica é uma atividade essencial na universidade e em todos os âmbitos da vida humana, mas que infelizmente tem sido negligenciada e até mesmo condenada. Chega a ser algo paradoxo que a crítica seja assim tão criticada. Dedico este texto a trazer um olhar crítico sobre as principais críticas contra a crítica, e alternativas aos argumentos incoerentes. É uma forma também de desabafo, por muitas vezes ter sido desencorajada a exercer o pensamento crítico, principalmente no ambiente da igreja.

1.    “Não critique se você não pode fazer algo melhor.” Sincero, mas errado. Imagine só, se ninguém pudesse criticar um filme, um livro, uma música ou qualquer coisa, só porque não sabe fazer algo melhor! Claro que o ideal seria que o ato de criticar nos levasse sempre a um futuro melhor que o presente. Mas a incapacidade de melhorar algo não diminui a relevância da crítica feita. Pelo contrário, a crítica se torna ainda mais efetiva, pois atinge tanto o criticado como também o crítico, ambos são levados a fazer uma autocrítica e melhorarem no que for necessário. Em vez disso eu diria: “Tem o direito de criticar aquele que quer ajudar a construir algo melhor.”

2.    “Quem é você pra criticar?” Esse argumento é usado para destruir a autoridade do crítico. Como se a permissão para exercer a crítica só fosse dada àqueles que tivessem uma vida moralmente correta em todos os aspectos (perfeita), sob o risco de sua crítica se tornar hipocrisia. Ora, isso é impossível! Quem é que nunca errou, e assim tornou-se também passível de críticas? Não ser perfeito não me impede de criticar o erro. Muitos usam até aquele versículo, totalmente fora de contexto: "Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” (Mt 7:1) Mas esquecem da segunda parte: “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados.” (Mt 7:2) Ou seja, não há aqui uma proibição à crítica, mas apenas um alerta: “Você pode criticar desde que esteja também aberto a receber críticas.”

3.    “Quem critica é porque não faz nada.” Imagino um crítico de cinema, economia ou política, uma pessoa que por muitos anos investiu tempo, dinheiro e inteligência para que pudesse exercer com credibilidade e responsabilidade sua profissão de “formador de opinião”, sendo acusado de vagabundo e desocupado! É cômico, para não dizer trágico. É um exemplo extremo, mas o que percebo é que este comentário tem sido usado repetida e levianamente. Não estou negando que há realmente pessoas que acham confortável ficarem sentadas e ditando ordens, corrigindo no trabalho alheio problemas que não existiriam se elas estivessem ali também cooperando. Mas há muitas situações em que o erro se tornou tão normal, que já não é mais facilmente corrigível, por mais esforço que se possa empregar. E nem por isso se deve ficar calado assistindo o desastre. “Quando não há nada que você possa fazer para ajudar a mudar, sua crítica já é um importante passo para a mudança.”

4.    “Quem critica é porque se acha superior.” Essa é clássica. E sempre vem acompanhada de uma expressão de orgulho ferido, que apenas demonstra que às vezes há na verdade é um senso de inferioridade no sujeito criticado, que por não saber receber ou responder uma crítica já assume o papel de coitado. É óbvio que o crítico também pode vir a ser orgulhoso e arrogante, mas nem sempre. O que estou dizendo aqui é que a soberba e a superioridade residem não na crítica em si, mas muito mais na forma de criticar ou de acolher a crítica. A crítica saudável deve ser realizada (e recepcionada) com discrição (Mt 18:15), santidade (Mt 7:1-5), humildade e submissão (Fp 2:3), mansidão e autoavaliação (Gl 6:1) e respeito (1 Pe 3:15). “Tanto o crítico como o criticado devem ter humildade e amor para reconhecerem mutuamente seus defeitos e qualidades.”

5.     “A crítica destrói relacionamentos e traz desunião.” Certa vez, após eu ter discordado de um assunto na igreja, me entristeci ao ouvir o seguinte comentário: “Quem questiona está sendo usado pelo diabo para implantar divisão no meio do povo de Deus.” Ao contrário do que esta pessoa pensava, a união verdadeira não suplanta as individualidades. O divergir, o criticar e o questionar apenas revelam que a igreja é uma comunidade de pessoas com opiniões diferentes, mas todas unidas por um mesmo propósito. E graças a Deus por isso! Que monótona seria uma igreja, uma universidade, uma família, uma empresa, enfim, um mundo onde todos pensassem do mesmo jeito. Indo na mesma linha do argumento anterior, podemos perceber que, na verdade: “A crítica quando bem feita e bem recebida tem a capacidade de melhorar os relacionamentos.”

6.    “A ideia da crítica é somente desconstruir.” Sim e não. ‘Sim’, porque a crítica realmente desfaz pensamentos, quebra paradigmas e analisa argumentos. Neste sentido, a crítica é negativa, porque é a negação de uma ideia. ‘Não’, porque a crítica também pode (e deve) ser positiva, quando bem utilizada. Quem já estudou dialética sabe o que é tese, antítese e síntese. Este é o modelo da crítica ideal: avaliar a tese (construção), desenvolver uma antítese (descontrução) e produzir uma síntese (reconstrução). Não é errado ‘desconstruir’. Errado é ‘destruir’. Ou seja, a crítica não é um fim em si mesma, não se pode criticar por criticar. É preciso criticar e propor algo melhor. “A ideia da crítica é que toda desconstrução seja (re)construtiva.”

7.     “Existem algumas verdades que não precisam ser criticadas.” Sim, eu acredito em verdades absolutas. Mas o fato de serem absolutas não quer dizer que não devam jamais ser criticadas. Alguém certa vez me disse: “Você não deve criticar aquilo em que acredita. Quem acredita não questiona, apenas aceita.” É isso mesmo, produção? Primeiro: isso é totalmente irracional. Se algo é absolutamente verdade, então se manterá firme não importa quantas críticas lhe sejam feitas. Claro que nunca encontraremos respostas para tudo. Mas podemos encontrar um sistema de ideias (cosmovisão) que explique de maneira mais coerente o maior número de questionamentos. E eu já encontrei essa cosmovisão: para mim é o cristianismo bíblico. Segundo: isso é totalmente antibíblico. Não podemos dividir o mundo em verdades sagradas e intocáveis de um lado e ideias profanas e questionáveis de outro, baseados puramente em critérios subjetivos e imperfeitos. A Bíblia nos recomenda, ao contrário, julgar todas as coisas e reter o que é bom. (I Ts 5:21) “Tenha sempre uma atitude de crítica positiva e construtiva em relação a tudo.”

8.    “Existem algumas pessoas que não devem ser criticadas.” Essa parece ser a mais absurda, mas infelizmente é uma das mais usadas. O erro do culto à personalidade é observado no mundo lá fora (ídolos, astros, ditadores, intelectuais, cientistas) e aqui dentro das igrejas, (apóstolos, bispos, pastores, levitas, papas). “Não critique o ungido do Senhor” (Sl 105:15) é o grito de muitas pessoas. Mas na verdade todos são imperfeitos e estão igualmente sujeitos a críticas. Sem falar que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.” Jesus é um exemplo para nós, pois mesmo sendo o único ser humano perfeito que já existiu, foi também alvo de críticas e jamais se esquivou delas, antes respondeu todas sempre de modo adequado. “Todas as pessoas são passíveis de crítica, até mesmo os críticos, pois ninguém é perfeito.”

9.     “A crítica é um mal que surge nas universidades e os jovens querem implantar na igreja.” Essa eu ouvi na escola dominical e foi de cortar o coração. Sim, há muitas coisas prejudiciais no ambiente universitário, das quais os jovens devem se proteger e se preparar para combater. Mas definitivamente o pensamento crítico não é uma delas. Até porque a crítica não surge na universidade (pelo contrário, é bem anterior a esta), o que acontece é que infelizmente muitos só têm o primeiro contato com ela quando ingressam no ensino superior. Não estou defendendo aqui o método histórico-crítico, o relativismo, o desconstrucionismo e todas essas outras baboseiras filosóficas que impregnam as universidades e insistem em tentar provar que o cristianismo é frágil à critica. Todos estes erraram, não pelo método errado, mas pelo pressuposto errado. Partiram da ideia de que crítica positiva é apenas aquela que no fim propõe algo novo. Não, a crítica deve propor o que é melhor. E se após ter passado pelo teste da crítica, for comprovado que o melhor é o que já existe, é com este que devemos ficar, mesmo que seja antigo, histórico e tradicional (como a Bíblia), mas é comprovadamente o mais confiável. “A crítica deve ser estimulada na igreja da mesma forma que o é na universidade, mas agora corretamente direcionada.”

10. “A Bíblia diz que é errado criticar.” Esta eu respondo usando as palavras do jornalista e teólogo Paulo Romeiro, extraídas do último capítulo do seu livro "Evangélicos em crise", com o tema “Discernir é preciso”:“Não é errado questionar. Quando Paulo chegou a Beréia, já possuía um currículo respeitado. (...) Nem por isso os crentes de Beréia foram ouvir o grande apóstolo pregar desprovidos de qualquer senso crítico. Mesmo tendo recebido a Palavra com avidez, na medida que Paulo e Silas ensinavam, eles examinavam as Escrituras para verificar se as informações eram corretas. E, ao invés de serem taxados de incrédulos ou duros de coração, Paulo disse que eles foram mais nobres do que os de Tessalônica (At 17.10-11). Que grande exemplo! (...) Está na hora de deixar de lado toda a ingenuidade e passar a desenvolver um ceticismo positivo e saudável. (...) O crescimento espiritual saudável depende do exercício constante do discernimento. O crente deve exercitar a sua consciência, os sentidos e a mente para saber a diferença entre a verdade e o erro.” “Criticar não é uma opção, mas um mandamento bíblico.”

Sei que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre crítica. A verdade é que tenho dois grandes problemas relacionados a isto. Primeiro: excesso de crítica, vivo insatisfeita e procurando defeitos nas coisas, ideias e pessoas ao meu redor. O erro aí está na soberba. Segundo: medo de críticas, vivo insegura e me achando despreparada para responder com argumentos lógicos e coerentes, e por isso às vezes evito expor a minha opinião. Desta vez o erro é a omissão. Mas, como já foi exposto anteriormente, não ser perfeita não me impede de criticar, até porque também estou aqui fazendo uma autocrítica. Que Deus me ajude a exercer com responsabilidade e amor a sua ordem de discernir, bem como me dê humildade e força para receber os julgamentos.

Critiquem-me.

Em Cristo,
Débora Silva Costa.

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