sábado, 31 de maio de 2014

Injustiça nossa de cada dia



Noite de sexta-feira, lá se vai mais uma semana de trabalho duro. Limpeza de supermercado nunca foi o sonho de ninguém. Lavar a sujeira que é dos outros, tarefa ingrata e sem fim. Todo dia tanta gente vem e vai, ninguém sente minha presença. Minha falta, sim, é sempre sentida, assim que algo fica fora do lugar. Nada de “obrigado”, pois faço nada mais que a minha obrigação. Em vez disso recebo o salário, o mínimo pra viver honestamente. Vida difícil, trabalho digno, descanso merecido.

Catraca de ônibus, portal que conduz a mim e a tantos brasileiros de volta pra nossas casas. O maldito congestionamento vai levando embora as horas de folga. O jeito é ter paciência, esperar, agradecer. Alegria de pobre é achar um cantinho pra sentar. Lá no fundo do ônibus é escuro, mas já me acostumei a ser invisível. Banco duro, espaço apertado, pequeno cochilo.

Banco da frente, duas moças entre risos e conversas. Estudantes da faculdade, trabalho duro também, mas que todo mundo sonha em ter. Adquirir conhecimentos para si, tarefa gratificante e de futuro promissor. Tão jovens, mas já têm tantas coisas que eu, já com meus cabelos brancos, jamais tive e terei. Que dirá daqui a uns anos, quando receberem aquele canudo. Vão ser alguém e vão ganhar bem, o bastante pra comprar lá no supermercado. E vão passar por mim e deixar a sujeira pra trás. Futuro da nação, país sem pobreza, Brasil de todos.

De repente uma das moças olha pra trás. Pra mim? Sim, ela está olhando mesmo pra mim. Olha só, eu fui notado. Ela faz uma cara de preocupação e fala comigo: “Moço, por favor, devolva meu celular. Moço, é sério, eu tô pedindo a você meu celular. Me dá licença, mas eu quero olhar o seu bolso. Me mostre o outro bolso, por favor. Desculpe, mas quero ver sua bolsa também. Moço, onde está meu celular?”

Cada frase dita era como uma faca fria e amolada penetrando meu peito. E mesmo que ela insistisse em usar as palavras mágicas “com licença”, “por favor” e “desculpa”, nada disso anestesiava a dor que eu sentia. Depois de alguns segundos de inércia, consegui formular minha fraca defesa: “Moça, eu não sou ladrão.” Mas ela não dava ouvidos e continuava a me cobrar. Eu insistia: “Moça, aqui no meu bolso só tem meu celular, pode olhar, eu não tenho nada a esconder.” Ela fazia uma cara de pena de mim, mas mesmo assim continuava pedindo. E eu implorava: “Moça, eu sou um trabalhador honesto, toda semana no supermercado eu acho um monte de celular e sempre devolvo, porque eu iria roubar logo o seu?”

E todo mundo em volta de repente prestou atenção em mim. Fui notado enfim, mas não da maneira que eu sonhava. Só quem já sofreu na pele sabe como é ruim esse sentimento de ser acusado por algo que não fez. Indignação, vontade de gritar, exigir respeito, meus direitos... Pra quê? O estrago já foi feito. Além do mais, que culpa tem a moça, né? Ela só viu o que qualquer um veria, que de todas as pessoas que estavam ali perto, só eu realmente tinha "cara de ladrão" (leia-se, pobre). E quem nunca julgou alguém pelas aparências que atire a primeira pedra. Mas a culpa é de quem, então?

~

Esta crônica é baseada em fatos reais, a respeito de uma situação que presenciei ontem (30 de maio de 2014) quando eu voltava da faculdade. Eu estava sentada ao lado desse senhor no momento em que tudo aconteceu, e eu era a pessoa que estava mais próxima à moça e que, portanto, teria tido mais facilidade de roubá-la, mas ela preferiu acusar aquele homem. Graças a Deus a maioria das pessoas que estavam ali partiu em defesa dele, mas é triste que esse tipo de coisa aconteça. A moça por fim encontrou o celular dentro de sua própria bolsa e pediu desculpas ao homem, embora não existam palavras que possam apagar tal constrangimento. Resolvi escrever esse texto não apenas porque a situação me comoveu bastante, mas também porque me deu o que pensar:

- Por que deixamos as coisas que possuímos terem mais valor que a dignidade das pessoas?
- Por que agimos por impulso no momento da emoção sem nos preocuparmos se estaremos ferindo os sentimentos de alguém?
- Por que somos rápidos em fazer julgamentos que são, na maioria das vezes, injustos?
- Por que somos tão obcecados pela aparência, mesmo sabendo que na maioria das vezes ela não corresponde à essência?
- Por que nos esquecemos de que qualquer pessoa tem a mesma capacidade de fazer o mal (como roubar, por exemplo), independente de sua educação, classe social, aparência física, etc.?

E, por fim, quero lembrar a história de um outro injustiçado. Que era um cidadão igualmente humilde, trabalhador, honesto. Que vivia para “limpar a barra” das pessoas. Que sentiu na pele o que é sofrer, o que é a pobreza e a injustiça deste mundo. Que mesmo assim, mantinha a paciência, a brandura, o silêncio e a gratidão a Deus. Mas que sofreu a maior injustiça de todas: foi acusado pelos erros de todos os homens (eu e você, inclusive), e, mesmo sendo inocente, recebeu pena de morte.

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus.” 1 Pedro 3:18

Que lembrar o exemplo dele nos faça mais justos, amorosos, e humildes, mesmo diante das injustiças de cada dia.


Em Cristo,
Débora Silva Costa.

2 comentários:

  1. Caramba, Débora!
    Que situação chata :(

    Uma vez feito o estrago, cabe a nos refletirmos

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  2. Gabi, ain q lindo tu lendo meu blog! ^_^

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