segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dor de cabeça


"Ai que dor de cabeça!", resmunguei na volta pra casa depois do lanche pós-culto. Paramos na farmácia e desci pra comprar um remédio.

Lá fora um rapaz mal vestido em pé na porta e no meio da chuva estende acanhadamente a mão e com o canto da boca deixa escapar o pedido: "Moça, uma ajuda, por favor!" Na pressa, vai a resposta automática: "Não tenho!".

Lá dentro um senhor bem arrumado em pé na fila do caixa estende firme a mão com seu cartão, e na outra mão segura uma lata de leite dessas mais caras. Indignado, deixa escapar uma reclamação ao homem no caixa: "E esse rapaz que fica aí fora? Toda vez que venho aqui ele está. E sempre com a mesma desculpa: que está com fome. Uma vez dei dez reais, e agora ele está aí pedindo de novo. Ele me enganou."

Lá do outro lado o caixa fardado sentado estende a mão com a maquinhinha do cartão de crédito, e responde com igual indignação: "Pois é, todo sando dia ele está aí, parece que a fome dele é insaciável. Fica enganando todo mundo."

Lá atrás eu em pé esperando com salto alto nos pés, uma dor aguda na cabeça e o remédio na mão... eu que geralmente sou de ficar calada, não me segurei: "Desculpe, mas não acho que ele está enganando ninguém, não. Até onde eu sei a fome é mesmo insaciável. Se ele estivesse pedindo outra coisa, sei lá, dinheiro pra comprar uma passagem ou um remédio, poderia estar mesmo enganando. Mas ele precisa de dinheiro todos os dias é pra comer, assim como todos nós precisamos."

"Ah, mas ele é desocupado mesmo, dona. Esse aí é jovem e forte, não trabalha porque não quer", defendeu-se o caixa. "Minha jovem, quero ver se eu oferecesse um emprego a ele se ele ia aceitar", propôs o senhor. E eu retruquei: "O senhor vai oferecer mesmo, ou está só enganando? Porque vamos admitir: quem é que tem mesmo coragem de dar emprego a uma pessoa como ele? Não tem estudo, não tem onde morar, não tem uma roupa pra vestir, não tem onde tomar banho, não tem nem o que comer... Quem é que confiaria numa pessoa assim?"

Não quero aqui entrar no mérito de quem está certo e errado como se fosse possível dividir a sociedade em vilões e mocinhos. Mas é perceptível que há um erro na história, e sabe onde ele está? Em todos nós. Sim! Em mim, naquele senhor, no caixa e no mendigo. Na humanidade.

"A culpa é do sistema" pode soar impessoal e covarde, uma tentativa de jogar a culpa em outro, nesse caso no "Grande Outro", essa ordem secreta das coisas. Mas basta refletir um pouco pra perceber que quem sustenta e legitima esse sistema aparentemente todo-poderoso somos nós mesmos, os indivíduos débeis e comuns. 

O mendigo representa tudo aquilo que nós mais evitamos. É a escória da sociedade, o consumidor falho, o marginalizado, o fracassado na vida, o não-adaptado ao sistema e, portanto, justamente punido. Entendo o seu lado, mas não o defendo, pois é aquele que já se conformou com sua vida fora das regras e que muitas vezes tenta se justificar como uma mera vítima do sistema. "Minha vida é difícil, eu não tenho nada."

O senhor e o caixa representam tudo aquilo que nós mais desejamos. É o cidadão exemplar, o consumidor modelo, o trabalhador, o que luta pra vencer na vida, é o que segue à risca o sistema e, portanto, clama por justiça. Entendo o lado deles, e por isso não os condeno, pois são aqueles que se indignam em ver que precisam trabalhar pra ter o pão de cada dia enquanto o outro "não faz nada". "Minha vida é difícil, eu pago meus impostos."

A questão é: Quando vamos parar de nos fazer de vítimas, de jogar a culpa no outro e assumir nossa própria responsabilidade? Em vez de pensar: "Dar esmola não ajuda!" porque não pensar: "E deixar de dar esmola ajuda?"

E o que Cristo faria? O que Cristo nos ensina sobre ajudar ao próximo sem esperar recompensa ou mesmo mudança da parte do outro? Como Cristo é um exemplo pra nós de amor aos injustiçados (que sofrem injustiça) e também aos injustos (que não praticam a justiça)? Qual dessas palavras de Deus está na Bíblia: "Faz por ti que eu te ajudarei" ou "Não temas, eu te ajudo"?

"Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido." Lucas 19:10
...

A discussão encerrou-se ali. O senhor depois de pagar a conta foi lá fora pra dizer ao mendigo algumas palavras, espero que tenha sido mesmo pra oferecer um emprego. A chuva ficou mais forte. Entrei no carro e lá dentro meus amigos esperavam curiosos: "O que você estava conversando com aquele senhor? Você sabe quem é ele? Ele já foi presbítero lá na igreja..."

Ai que dor de cabeça!



Em Cristo,
Débora Silva Costa.

2 comentários:

  1. Debinha,

    É mesmo um assunto tão complexo! Sabemos que o problema é sistêmico e que nenhuma atitude nossa resolve todo ele, mas, ao mesmo tempo, há muitos casos de ajuda que faz mal que muitas vezes realmente desanima ajudar.

    Incomoda-me muito, porém, nossa mentalidade de que tudo deve depender do Estado. Acho que isso é mais um "outro" que nos acostumamos a culpar.

    Isso também no assunto criminalidade. Tem gente que diz que a culpa é da sociedade. Espera aí: mas nós não fazemos parte dela e também não temos parte da culpa?

    É certo que frequentemente a culpa é mais pessoal, já que cada um arca com as consequências de suas escolhas. Mas há muitas pessoas que simplesmente não conseguem sair sozinhas do problema. Para começar a ajudá-las de forma eficiente é preciso conhecê-las: por que elas chegaram a esse ponto e como se pode ajudar. Isso ninguém quer mesmo.

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  2. Junim, eu sei que é complexo msm. Aqui é só um ponto de partida pra reflexões mais aprofundadas. É um assunto que de fato abre p várias discussões: criminalidade, distribuição de renda, políticas de assistencialismo, desigualdade social, etc...

    O que me indigna é a forma como as pessoas generalizam e simplificam as coisas sem nem se darem ao trabalho de refletir e pesar as consequências das ações (ou omissões) a longo prazo.

    Sim, concordo q tem pequenas ajudas que fazem mais mal q bem, mas o problema é que as pessoas não estão nem mesmo interessadas em ajudar da forma que efetivamente vale a pena. Então qnd se pode ter tudo, é melhor um pouco que nada, né?

    Assumir a própria culpa não deve depender de o outro primeiro assumir a dele. Cada um faça sua parte. O importante é a gente desnaturalizar e se desacostumar com certas situações do cotidiano, e realmente parar pra se questionar pq as coisas são assim. Isso já é um primeiro passo pra a mudança.

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