quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de internet e novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem anterior eu trouxe a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na postagem de hoje teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - A PRÁTICA DO DISCERNIMENTO

Seria um erro supor que as guerras contra Harry Potter representaram uma luta de todos os cristãos conservadores contra educadores liberais e fãs. Enquanto alguns querem simplesmente reintroduzir as autoridades antigas e fortalecer as instituições que estão sendo desafiadas por essa cultura mais participativa, outros querem ajudar as crianças a aprender a fazer julgamentos sobre o conteúdo de mídia. Muitos grupos cristãos defenderam os livros, apresentando o conceito de "discernimento" como uma alternativa ao discurso da guerra cultural. 

Connie Neal, autora de "What's a Christian to do with Harry Potter?" (em português, "Os segredos espirituais de Harry Potter"), imaginou essa alternativa como a "construção de um muro" para proteger as crianças de influências externas ou uma "blindagem", de modo que elas possam trazer os seus próprios valores quando se deparam com a cultura popular. Neal observa que "restringir a liberdade pode incitar a curiosidade e rebeldia, levando aquele que você pretende proteger a ultrapassar a barreira de proteção para ver o que o que está perdendo... Mesmo se fosse possível manter as crianças separadas de todas as influências potencialmente perigosas, isso as impediria de enfrentar situações onde poderiam desenvolver a maturidade para evitar esses perigos sozinhas." Em vez disso, Neal defende que é preciso dar às crianças habilidades de letramento midiático, ensinando-lhes a avaliar e interpretar a cultura popular dentro de um contexto cristão. 

Um dos grupos de discernimento, Ransom Fellowship, define o discernimento como "a capacidade, pela graça de Deus, de traçar criativamente um caminho honrado em meio ao labirinto de escolhas e opções com as quais nos deparamos, mesmo quando estamos diante de situações e questões que não são especificamente mencionadas nas Escrituras." O movimento do discernimento inspira-se em uma série de passagens bíblicas que falam de pessoas que mantiveram sua fé, mesmo quando viviam em uma terra estrangeira. O movimento argumenta que os cristãos estão vivendo em um "cativeiro moderno," mantendo e transmitindo a sua fé num contexto cada vez mais hostil. 

Em "Pop Culture: Why Bother?" ("Cultura Pop: Por que se preocupar?"), Denis Haack, o fundador e diretor do Ransom Fellowship, argumenta que o envolvimento coma cultura popular, em vez do distanciamento, tem benefícios importantes. Exercícios de discernimento podem ajudar os cristãos a desenvolver uma maior compreensão do seu próprio sistema de valores, podem fornecer insights sobre a visão de mundo dos "não crentes", e pode oferecer uma oportunidade significativa para troca entre cristãos e não-cristãos. De acordo com Haack, "Se quisermos compreender aqueles que não compartilham nossas convicções mais profundas, devemos tentar compreender aquilo em que eles acreditam, porque eles acreditam, e como essas crenças operam na vida cotidiana." 

O site do grupo fornece argumentos e conselhos sobre como estimular o letramento midiático dentro de um contexto explicitamente religioso, encontrando ideias que valem a pena ser discutidas em obras comerciais como tão diversas como "Bruce Almighty" ("Todo Poderoso", 2003), "Cold Mountain" (2003), e Lord of the Rings ("Senhor dos Anéis", 2001) (...) O site é muito explícito quanto às eventuais discordâncias entre os próprios cristãos a respeito do que vale ou não a pena considerar nessas obras, mas acrescenta que o processo de discussão sobre as diferenças concentra a energia em assuntos espirituais e ajuda a todos os envolvidos para se tornarem mais hábeis em aplicar e defender sua fé. 

Enquanto alguns conservadores culturais interpretam a imersividade na cultura popular contemporânea como uma armadilha que enreda os jovens em um perigoso mundo de fantasias, outros dentro do movimento do discernimento têm promovido o uso de jogos de interpretação e de computador como espaços para explorar e debater questões morais. 
(...) 
Muitos líderes do movimento discernimento enaltecem menos os aspectos "nerds e esquisitos" da cultura popular, mas reconhecem o valor da apropriação e reavaliação de obras da cultura popular. Muitos defensores do discernimento consideram os livros de Harry Potter como a oportunidade perfeita para os pais conversarem com seus filhos sobre os desafios de preservar seus valores em uma sociedade secular. Haack explica: 

"A verdade é ensinada aqui, verdade que vale a pena ser refletida e discutida, e, embora seja ensinada em um mundo imaginário, ela se aplica à realidade também... O mundo em que Harry Potter vive é um mundo de ordem moral, onde as ideias e escolhas têm conseqüências, onde o bem e o mal são claramente distintos, onde o mal é igualmente desumano e destrutivo, e onde a morte é dolorosamente real .... Mesmo se tudo o que os críticos dizem fosse verdade, a atitude defensiva de suas recomendações é francamente constrangedora. Se os livros de Harry Potter fossem uma introdução ao ocultismo, a igreja deveria aproveitar a oportunidade para lê-los e discuti-los. O neopaganismo é uma realidade crescente neste mundo pós-cristão, e as nossas crianças precisam ser capazes de enfrentar esse desafio com serena confiança no Evangelho. Elas precisam saber a diferença entre a literatura de fantasia e ocultismo. E precisam ver os mais velhos agindo com integridade, e não com escândalo."
(...) 
Connie Neal pede aos pais cristãos que considerem o que Jesus faria se confrontado com essas histórias: 

"Jesus talvez lesse as histórias de Harry Potter e as usasse como pontos de partida para suas parábola... Assim como Jesus deu atenção às necessidades físicas dos outros, ele talvez desse atenção às necessidades terrenas reveladas nas vidas daqueles que se identificam com os personagens de Harry Potter. Ele talvez conversasse sobre Harry Potter e ouvisse as coisas com as quais eles mais se identificam: negligência, pobreza, discriminação, abuso, medos, sonhos, as pressões para se ajustarem, o desejo de realizar algo na vida, ou o stress da escola. Então ele iria mostrar-lhes como lidar com tais aspectos reais de suas vidas."


Ao invés de proibir conteúdos que não se ajustam completamente à sua visão de mundo, o movimento do discernimento ensina às crianças e aos pais como ler esses livros de forma crítica, como atribuir-lhes novos significados, e como usá-los como pontos de acesso a perspectivas espirituais alternativas. 

Em vez de bloquear a intertextualidade, que é tão profusa na era de narrativa transmídia, Neal, Haack, e outros líderes do discernimento estão procurando maneiras de aproveitar a força da intertextualidade. Eles fornecem listas de leitura para os pais que querem utilizar o interesse de seus filhos em Harry Potter como um ponto de acesso à fantasia cristã. Vários grupos de discernimento publicaram guias de estudo para acompanhar os livros e os filmes de Harry Potter, com "perguntas de sondagem", destinadas a explorar as escolhas morais feitas pelos personagens, complementadas com versículos bíblicos que sugerem como as mesmas decisões são enfrentadas dentro da tradição cristã. Os guias salientam, por exemplo, o momento em que a mãe de Harry sacrifica a vida para protegê-lo como um modelo positivo de amor cristão, ou apontam as escolhas morais deturpadas, que levaram à criação da Pedra Filosofal, como um exemplo de pecado. Enquanto os cristãos anti-Harry Potter querem proteger as crianças contra a exposição a esses livros perigosos, o movimento do discernimento enfatiza a ação dos consumidores para se apropriar e transformar o conteúdo de mídia.


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (1): teorias da conspiração


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem de hoje trago a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na próxima postagem teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO
Mais do que qualquer outro livro nos últimos anos, os livros de Harry Potter estiveram no centro de polêmicas envolvendo livros e bibliotecas. Em 2002, eles foram alvos de mais de 500 “contestações” em escolas e bibliotecas de todo o país (Estados Unidos). Em Lawrence, Kansas, por exemplo, a biblioteca pública de Oskaloosa foi obrigada a cancelar os planos de uma “aula especial de Hogwarts” para “jovens aspirantes a bruxas e magos” porque os pais da comunidade pensaram que a biblioteca estava tentando recrutar crianças para adorar o diabo. 
(...) 
Em Alamogordo, Novo México, a Igreja Comunidade de Cristo (Christ Cummunity Church) queimou mais de 30 livros de Harry Potter, além de DVDs de Branca de Neve e os Sete anões (1937), da Disney, CDs do Eminem e romances de Stephen King. Jack Brock, o pastor da igreja, justificou a queima de livros alegando que Harry Potter, livro que admitiu não ter lido, era “uma obra-prima de artimanha demoníaca” e um manual de instruções para a arte das trevas. (...) Outro pastor, reverendo Lori Jo Scheppers, afirmou que as crianças expostas a Harry Potter teriam “uma boa chance de se tornarem como aqueles garotos de Columbine”. 
(...)
O evangelista Phil Arms, por exemplo, descreve Harry Potter e Pokémon (1998) como “atrações fatais”, atraindo crianças para o mundo das ciências ocultas: “mais cedo ou mais tarde todos os que entram no mundo de Harry Potter devem enfrentar a verdadeira face por trás do véu. E quando o fazem, descobrem o que todos aqueles que brincam com o mal descobrem, ou seja, embora talvez só estivessem brincando, o Diabo sempre joga pra valer.” Os reformadores morais citam  o exemplo das crianças que se vestem como Harry Potter, usam chapéu de bruxo para imitar o ritual de iniciação do livro ou desenham raios na testa para reproduzir a cicatriz de Harry, como prova de que eles não estão apenas lendo os livros, mas começando a participar de atividades de ocultismo. 
(...)
Phil Arms e seus aliados temem que a imersão em universos ficcionais possa tornar-se uma forma de "projeção astral", ou que, quando proferimos palavras mágicas, as forças demoníacas que invocamos não percebem, necessariamente, que estamos apenas fingindo. Esses críticos conservadores advertem que as experiências atraentes da cultura popular podem se sobrepor a experiências do mundo real até que as crianças já não possam mais distinguir entre fato e fantasia. Para alguns, este nível de envolvimento é o suficiente para colocar os livros de Harry Potter sob suspeita: “Esses livros são lidos repetidamente por crianças da mesma maneira que a Bíblia deveria ser lida.” 
(...)
Outro evangelista, Berit Kjos, nos adverte: "O principal produto comercializado através deste filme é um sistema de crença que entra em choque com tudo o que Deus nos oferece para a nossa paz e segurança. Esta ideologia pagã se completa com figurinhas, jogos de computador, roupas e enfeites estampados com os símbolos de Harry Potter, action figures, bonecas fofinhas e fitas de áudio que podem manter a mente das crianças concentrada nas ciências ocultas o dia inteiro. Mas aos olhos de Deus, essa parafernália se torna pouco mais do que uma armadilha, uma porta de entrada para um envolvimento mais profundo com o ocultismo."

Eles afirmam ainda que Rowling faz mais de sessenta referências específicas nos quatro primeiros livros a práticas reais de ocultismo e à pessoas ligadas à história da alquimia e bruxaria. (...) Alguns críticos fundamentalistas (fundamentalismo é um rótulo controverso, mas manteremos aqui para reproduzir com exatidão o pensamento original do autor) interpretam o raio na testa de Harry como a "marca da besta", ou descrevem Voldemort como "aquele sem nome", um bruxo anticristo, ambos profetizados no livro Apocalipse. Eles alegam que as crianças que procuram informações adicionais serão atraídos para obras pagãs que prometem mais conhecimento e poder. 
(...)
Alguns ativistas encaram os livros como um enfraquecimento da influência cristã na cultura, em favor de um novo espiritualismo global. Kjos alerta que "os livros de Harry Potter não seriam socialmente aceitos há 50 anos. O clima cultural atual - tolerante com o entretenimento ocultista e intolerante com o cristianismo bíblico - foi planejado um século atrás." (...) Para alcançar um mercado global, afirmam os críticos cristãos, o capitalismo americano deve remover os últimos vestígios da tradição judaico-cristã e, para promover o consumismo, deve destruir toda a resistência à tentação. Aspectos da fé pagã e da fé oriental estão entrando salas de aula de uma forma secularizada (...) enquanto o cristianismo permanece bloqueado é excluído pelos defensores da separação entre igreja e estado. Como consequência os livros de Harry Potter terão efeitos muito diversos dos de, digamos, O Mágico de Oz (1900), lido pelas crianças dentro de uma cultura profundamente cristã. 
(...) 
Tentando conseguir apoio público, (educadores) criaram uma organização, "Trouxas de Harry Potter" (Muggles for Harry Potter), o que iria atrair o interesse nacional e internacional dos fãs. 
(...) O grupo ficou conhecido por conter as tentativas nacionais dos fundamentalistas de proibir os livros nas escolas. (...) A organização procurou ensinar jovens leitores dos livros de Harry Potter sobre a importância de defender a liberdade de expressão. A organização, que mais tarde mudou seu nome para kid-SPEAK!, criou fóruns online onde as crianças  poderiam compartilhar suas opiniões com os outros sobre esta e outras questões de censura. Por exemplo, Jaclyn uma estudante da sétima série, escreveu esta resposta à notícia de que um ministro fundamentalista tinha picotado cópias de Harry Potter quando os bombeiros se recusaram a conceder-lhe uma licença para ter queimar os livros: 

"Reverendo Taylor, anfitrião da Jesus Party, deveria analisar melhor antes de julgar. As crianças estão lendo esses livros e descobrir que há mais coisas na vida do que ir à escola. O que eles estão descobrindo, exatamente? Sua imaginação. O Reverendo Doug Taylor percebe o que está fazendo? As crianças estão lutando por seus direitos garantidos pela Primeira Emenda, mas eles também lutam por sua imaginação - a única coisa que faz uma pessoa ser diferente dos outros. Ao vê-lo retalhar os livros, estamos vendo, quase simbolicamente, o retalhamento das nossas imaginações. As crianças gostam dos livros porque querem viver naquele mundo, querem ver a magia, e não um mágico fajuto tirar um coelho da cartola. (...) Mas elas sabem que Hogwarts não é real e que Harry Potter não existe."
(...) As crianças são forçadas a renunciar à fantasia a fim de defender o próprio direito de possuí-la. (...) Mas os cristãos conservadores são apenas o grupo mais visível de uma ampla gama de grupos, cada um citando suas próprias preocupações ideológicas, em reação a uma mudança no paradigma das mídias. Cristãos anti-Harry Potter compartilham muitas preocupações com outros grupos de reformadores, associando o receio do poder persuasivo da publicidade ao receio do aspecto demoníaco de imersão, explorando, em suas críticas ao espiritualismo global, os anseios sobre o consumismo e o capitalismo multinacional. (...) 

Onde alguns vêem um mundo mais livre de gatekeepers (pessoas/instituições que controlam o acesso a algo, no caso, às informações e produtos culturais), eles (os conservadores) vêem um mundo em que as comportas foram abertas e ninguém pode controlar o fluxo de "esgoto" em suas casas. Esses grupos querem reivindicar uma reação coletiva aos problemas que certos pais não conseguem enfrentar sozinhos. (...) Como protesta Michael O'Brien, "Nossa cultura nos impele continuamente a baixar a guarda, a fazer julgamentos apressados que parecem mais fáceis, pois reduzem a tensão da vigilância. O ritmo acelerado e o grande volume de consumo que a cultura moderna parece exigir de nós, torna o discernimento genuíno mais difícil."


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

Continuação: O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento

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