terça-feira, 19 de agosto de 2014

O que Jesus faria com Harry Potter? (1): teorias da conspiração


Deus pode nos ensinar por vários meios e de muitas maneiras. Na universidade, por exemplo, tive contato com o livro "Cultura da Convergência", que trata sobre este conceito desenvolvido pelo autor Henry Jenkins para designar essa cultura popular que está emergindo com a convergência dos meios de comunicação nesses tempos de novas mídias digitais. 
A pergunta é: e o que isso tem a ver com religião? Pois é, a gente nunca sabe quando vai encontrar uma boa oportunidade pra pensar sobre a cultura de nossa época com uma visão cristã, no caso, tendo como objeto a literatura de ficção infantil, especificamente a saga Harry Potter. Logo abaixo reproduzo alguns trechos do capítulo 5 - Porque Heather pode escrever: o letramento midiático e as guerras de Harry Potter, para refletirmos como um escritor não-cristão da área da mídia compreende as diferentes perspectivas do cristianismo sobre um mesmo fenômeno.

Nunca li nem assisti nada desta saga, mas considero a discussão bastante pertinente, principalmente sendo eu uma entre muitos cristãos neste mundo cada vez mais plural, massificado e secularizado, no qual estamos inseridos, mas ao qual não pertencemos. Na postagem de hoje trago a visão cristã negativa, com os principais argumentos levantados por alguns contra Harry Potter e outros produtos da cultura popular. Na próxima postagem teremos o ponto de vista moderado, que introduz o discernimento como estratégia de convivência do cristão com a cultura secular.

O QUE JESUS FARIA COM HARRY POTTER? - AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO
Mais do que qualquer outro livro nos últimos anos, os livros de Harry Potter estiveram no centro de polêmicas envolvendo livros e bibliotecas. Em 2002, eles foram alvos de mais de 500 “contestações” em escolas e bibliotecas de todo o país (Estados Unidos). Em Lawrence, Kansas, por exemplo, a biblioteca pública de Oskaloosa foi obrigada a cancelar os planos de uma “aula especial de Hogwarts” para “jovens aspirantes a bruxas e magos” porque os pais da comunidade pensaram que a biblioteca estava tentando recrutar crianças para adorar o diabo. 
(...) 
Em Alamogordo, Novo México, a Igreja Comunidade de Cristo (Christ Cummunity Church) queimou mais de 30 livros de Harry Potter, além de DVDs de Branca de Neve e os Sete anões (1937), da Disney, CDs do Eminem e romances de Stephen King. Jack Brock, o pastor da igreja, justificou a queima de livros alegando que Harry Potter, livro que admitiu não ter lido, era “uma obra-prima de artimanha demoníaca” e um manual de instruções para a arte das trevas. (...) Outro pastor, reverendo Lori Jo Scheppers, afirmou que as crianças expostas a Harry Potter teriam “uma boa chance de se tornarem como aqueles garotos de Columbine”. 
(...)
O evangelista Phil Arms, por exemplo, descreve Harry Potter e Pokémon (1998) como “atrações fatais”, atraindo crianças para o mundo das ciências ocultas: “mais cedo ou mais tarde todos os que entram no mundo de Harry Potter devem enfrentar a verdadeira face por trás do véu. E quando o fazem, descobrem o que todos aqueles que brincam com o mal descobrem, ou seja, embora talvez só estivessem brincando, o Diabo sempre joga pra valer.” Os reformadores morais citam  o exemplo das crianças que se vestem como Harry Potter, usam chapéu de bruxo para imitar o ritual de iniciação do livro ou desenham raios na testa para reproduzir a cicatriz de Harry, como prova de que eles não estão apenas lendo os livros, mas começando a participar de atividades de ocultismo. 
(...)
Phil Arms e seus aliados temem que a imersão em universos ficcionais possa tornar-se uma forma de "projeção astral", ou que, quando proferimos palavras mágicas, as forças demoníacas que invocamos não percebem, necessariamente, que estamos apenas fingindo. Esses críticos conservadores advertem que as experiências atraentes da cultura popular podem se sobrepor a experiências do mundo real até que as crianças já não possam mais distinguir entre fato e fantasia. Para alguns, este nível de envolvimento é o suficiente para colocar os livros de Harry Potter sob suspeita: “Esses livros são lidos repetidamente por crianças da mesma maneira que a Bíblia deveria ser lida.” 
(...)
Outro evangelista, Berit Kjos, nos adverte: "O principal produto comercializado através deste filme é um sistema de crença que entra em choque com tudo o que Deus nos oferece para a nossa paz e segurança. Esta ideologia pagã se completa com figurinhas, jogos de computador, roupas e enfeites estampados com os símbolos de Harry Potter, action figures, bonecas fofinhas e fitas de áudio que podem manter a mente das crianças concentrada nas ciências ocultas o dia inteiro. Mas aos olhos de Deus, essa parafernália se torna pouco mais do que uma armadilha, uma porta de entrada para um envolvimento mais profundo com o ocultismo."

Eles afirmam ainda que Rowling faz mais de sessenta referências específicas nos quatro primeiros livros a práticas reais de ocultismo e à pessoas ligadas à história da alquimia e bruxaria. (...) Alguns críticos fundamentalistas (fundamentalismo é um rótulo controverso, mas manteremos aqui para reproduzir com exatidão o pensamento original do autor) interpretam o raio na testa de Harry como a "marca da besta", ou descrevem Voldemort como "aquele sem nome", um bruxo anticristo, ambos profetizados no livro Apocalipse. Eles alegam que as crianças que procuram informações adicionais serão atraídos para obras pagãs que prometem mais conhecimento e poder. 
(...)
Alguns ativistas encaram os livros como um enfraquecimento da influência cristã na cultura, em favor de um novo espiritualismo global. Kjos alerta que "os livros de Harry Potter não seriam socialmente aceitos há 50 anos. O clima cultural atual - tolerante com o entretenimento ocultista e intolerante com o cristianismo bíblico - foi planejado um século atrás." (...) Para alcançar um mercado global, afirmam os críticos cristãos, o capitalismo americano deve remover os últimos vestígios da tradição judaico-cristã e, para promover o consumismo, deve destruir toda a resistência à tentação. Aspectos da fé pagã e da fé oriental estão entrando salas de aula de uma forma secularizada (...) enquanto o cristianismo permanece bloqueado é excluído pelos defensores da separação entre igreja e estado. Como consequência os livros de Harry Potter terão efeitos muito diversos dos de, digamos, O Mágico de Oz (1900), lido pelas crianças dentro de uma cultura profundamente cristã. 
(...) 
Tentando conseguir apoio público, (educadores) criaram uma organização, "Trouxas de Harry Potter" (Muggles for Harry Potter), o que iria atrair o interesse nacional e internacional dos fãs. 
(...) O grupo ficou conhecido por conter as tentativas nacionais dos fundamentalistas de proibir os livros nas escolas. (...) A organização procurou ensinar jovens leitores dos livros de Harry Potter sobre a importância de defender a liberdade de expressão. A organização, que mais tarde mudou seu nome para kid-SPEAK!, criou fóruns online onde as crianças  poderiam compartilhar suas opiniões com os outros sobre esta e outras questões de censura. Por exemplo, Jaclyn uma estudante da sétima série, escreveu esta resposta à notícia de que um ministro fundamentalista tinha picotado cópias de Harry Potter quando os bombeiros se recusaram a conceder-lhe uma licença para ter queimar os livros: 

"Reverendo Taylor, anfitrião da Jesus Party, deveria analisar melhor antes de julgar. As crianças estão lendo esses livros e descobrir que há mais coisas na vida do que ir à escola. O que eles estão descobrindo, exatamente? Sua imaginação. O Reverendo Doug Taylor percebe o que está fazendo? As crianças estão lutando por seus direitos garantidos pela Primeira Emenda, mas eles também lutam por sua imaginação - a única coisa que faz uma pessoa ser diferente dos outros. Ao vê-lo retalhar os livros, estamos vendo, quase simbolicamente, o retalhamento das nossas imaginações. As crianças gostam dos livros porque querem viver naquele mundo, querem ver a magia, e não um mágico fajuto tirar um coelho da cartola. (...) Mas elas sabem que Hogwarts não é real e que Harry Potter não existe."
(...) As crianças são forçadas a renunciar à fantasia a fim de defender o próprio direito de possuí-la. (...) Mas os cristãos conservadores são apenas o grupo mais visível de uma ampla gama de grupos, cada um citando suas próprias preocupações ideológicas, em reação a uma mudança no paradigma das mídias. Cristãos anti-Harry Potter compartilham muitas preocupações com outros grupos de reformadores, associando o receio do poder persuasivo da publicidade ao receio do aspecto demoníaco de imersão, explorando, em suas críticas ao espiritualismo global, os anseios sobre o consumismo e o capitalismo multinacional. (...) 

Onde alguns vêem um mundo mais livre de gatekeepers (pessoas/instituições que controlam o acesso a algo, no caso, às informações e produtos culturais), eles (os conservadores) vêem um mundo em que as comportas foram abertas e ninguém pode controlar o fluxo de "esgoto" em suas casas. Esses grupos querem reivindicar uma reação coletiva aos problemas que certos pais não conseguem enfrentar sozinhos. (...) Como protesta Michael O'Brien, "Nossa cultura nos impele continuamente a baixar a guarda, a fazer julgamentos apressados que parecem mais fáceis, pois reduzem a tensão da vigilância. O ritmo acelerado e o grande volume de consumo que a cultura moderna parece exigir de nós, torna o discernimento genuíno mais difícil."


Henry Jenkins, Cultura da Convergência

Continuação: O que Jesus faria com Harry Potter? (2): a prática do discernimento

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