sábado, 27 de setembro de 2014

#papocabeça - O que a moral tem a ver com a religião?


“A moral deixaria de ser moral, caso não contivesse mais nenhum elemento religioso.” Essa frase tão impactante parece até que veio de um tratado bíblico de algum teólogo, de uma declaração doutrinária de alguma igreja, de uma pregação expositiva de algum pastor... Mas não é nada disto que você está pensando! Esta frase é simplesmente a conclusão a que chegou o respeitado pensador Émile Durkheim sobre o fundamento divino da moralidade humana. Trata-se de uma análise totalmente sociológica e filosófica, não tem nada de teologia ou misticismo! Ou seja, ele buscou esclarecer a religião a partir de fatores fora dela, dando explicações que poderiam ser entendidas por todas as pessoas, fossem elas religiosas ou não.

Nós cristãos entendemos e aceitamos que a moralidade (conjunto de regras que orientam o comportamento humano) e a consciência (noção das próprias ações e deveres) vêm de Deus porque a bíblia nos diz que é assim, e porque ela é para nós a regra da vida prática. Mas e se alguém que não acredita em Deus te pedisse uma explicação bem convincente para a moralidade humana sem usar a bíblia? Durkheim fez justamente isto, investigou profundamente as raízes da moral, e qual não foi a surpresa: ele encontrou o alicerce justamente no mesmo lugar em que já estava posto: no sagrado, na fé, no divino, na religião! Vou tentar ser o mais clara possível, pra que todos possam entender a grande conclusão dele.

Durkheim (1858-1917) foi o primeiro sociólogo a criar métodos na sociologia, sendo "As formas elementares da vida religiosa" uma de suas obras mais importantes. Ele propõe o conceito de “consciência coletiva” como sendo uma espécie de alma da sociedade, a identidade de um grupo, e que seria um protótipo da moralidade, da ética e do direito como conhecemos hoje. "Consciência coletiva" seria como uma grande “pessoa coletiva”, constituída pelas consciências particulares de cada um dos seres humanos, de tal maneira que esse “espírito de coletividade” é bem maior (transcendente) que as consciências individuais, mas, ao mesmo tempo, permanece dentro da consciência de cada um dos indivíduos (imanente).

Para Durkheim, a fé religiosa não é uma simples atitude divina e sobrenatural, mas é uma expressão desta “consciência coletiva”. A fé, no entendimento sociológico dele, é um conjunto de símbolos que servem para a comunicação e que podem agrupar as pessoas em torno de um propósito comum e promover um consenso na comunidade. É o que nós cristãos entendemos como comunhão em torno da mesma crença. Para compreender como Durkheim chega a estas raízes sagradas da autoridade moral, é preciso acompanhar a sua demonstração das semelhanças entre moralidade (1) e religião (2).

De acordo com a sua lógica de raciocínio, a moralidade (1) têm duas características principais:
1a) caráter impessoal da autoridade moral
1b) ambivalência de sentimentos provocada no indivíduo

Calma que eu vou explicar!


O que é impessoalidade da autoridade moral (1a)? Ele quer indicar com este conceito que as regras morais são dotadas de uma autoridade especial, que faz com que elas sejam obedecidas por nós automaticamente. Ou seja, nós não obedecemos uma norma ou lei porque a avaliamos detalhadamente e chegamos à conclusão racional de que ela é realmente boa e, por isso, deve ser seguida. Não, pelo contrário, as leis são obedecidas pelo simples fato de ordenarem algo, simplesmente por serem leis e pronto. Nós internalizamos esses comportamentos generalizados de uma sociedade como sendo exigências morais, e passamos a cumpri-las quase mecanicamente, simplesmente pelo seu caráter obrigatório.

E essa tal de ambivalência de sentimentos (1b)? Ele refere-se a dois sentimentos ambíguos que brotam na gente no momento em que cumprimos uma regra moral. São como duas forças opostas coexistindo e cooperando na formação da obrigação moral: uma força de coação e uma força de atração. A força de coação é aquela que nos leva a cumprir uma lei pelo medo, ou seja, agimos moralmente por submissão e temor a uma autoridade que impõe respeito por estar tanto "acima de nós" como, ao mesmo tempo, "interna a nós". Por outro lado, há também a força de atração, que nos conduz à obediência também por reconhecer que na lei há algo de desejável, ou seja, agimos moralmente por reconhecer que o bem é digno de ser buscado, que é um ideal a ser almejado, que traz alguma satisfação pessoal, que desperta em nós uma vontade de segui-lo com zelo e entusiasmo. Portanto, a "obrigatoriedade" e “desejabilidade” são dois sentimentos ambivalentes, duas faces da mesma moeda da moralidade.

Sim, e o que isto tem a ver com a religião? Este é o ponto! Durkheim vê essas duas características acima da moralidade como semelhantes a outras duas características da religião (2), que são:
2a) delimitação dos domínios sagrado e profano
2b) atitude ambivalente do sagrado

Vamos lá explicar essas duas características!


Primeiro, pra entender essa separação entre sagrado e profano (2a), é preciso saber o significado desses dois domínios tão diferentes. Durkheim diz que “O sagrado tem a ver com aquilo que é individualizado, separado. Ele se caracteriza pelo fato de não se misturar com o profano. Caso viesse a acontecer, ele deixaria de ser o que é. Qualquer mistura, o menor toque, tem como consequência sua profanação.” (Note que é igualzinho ao conceito teológico de "santo", que quer dizer algo "separado" do mundo e para Deus). Pois é, e olhe só: esta atitude de respeito para com o sagrado é semelhante ao que acabamos de ver com relação à obediência meio que automática à autoridade moral. O crente também assume certos comportamentos quando entra em comunhão com a comunidade religiosa, de modo que internaliza os preceitos religiosos, e passa a cumpri-los quase automaticamente, simplesmente pelo seu caráter de "ordem divina" e "mandamento".

No aspecto da ambivalência do sagrado (2b), também percebemos a mesma coexistência das duas forças opostas que já identificamos acima em relação às normas morais: uma força que impele e uma força que atrai. O sagrado desperta esses dois sentimentos ambíguos no indivíduo: “a aura que atrai e encanta e ao mesmo tempo que assusta e aterroriza.” O ser divino (Deus) é tanto um ser proibido, respeitado e temido, mas também que é bom, amado, desejado. Como entende Durkheim, "o objeto sagrado nos inspira, senão o temor, pelo menos um respeito de que ele nos isola, que nos mantem a distância; e ao mesmo tempo, ele é objeto de amor e de desejo; nós tendemos a nos aproximar dele.”

***

Enfim! Se formos transformar essas ideias numa equação chegaríamos à conclusão que:
Se 1a = 2a (impessoalidade da autoridade moral = delimitação entre sagrado e profano)
e 1b = 2b (ambivalência de sentimentos da moral = ambivalência do sagrado),
então 1 = 2 (moralidade = religião).

Trocando em miúdos: Durkheim enxerga que a moralidade é similar à religião por ambas carregarem características em comum (aqui apresentamos duas principais). A moral preserva o conteúdo da religião mesmo que abandone a forma religiosa. "As analogias estruturais entre o sagrado e a moral levam Durkheim a concluir pela existência de uma base sagrada da moral. [...] As regras morais extraem sua força vinculante da esfera do sagrado."

Este texto é apenas uma reflexão sobre uma pequena parte da teoria de Durkheim. Não tem o objetivo de ser um ensaio exaustivo sobre o tema, nem esgotar toda a verdade sobre a relação entre moral e religião. Mas a partir desta pequena análise podemos enxergar como moral e religião têm tudo a ver, e também compreender como funciona a nossa sociedade atual, em que cada vez mais questões religiosas influenciam discussões jurídicas, princípios éticos e até decisões políticas (a força da pauta religiosa nas eleições é um bom exemplo disto). Isto nos leva a algumas questões:

* A moralidade pode ser considerada como um argumento convincente para provar a existência de Deus? 
* Todo homem tem uma consciência religiosa mesmo que se afirme ateu ou não religioso? 
* Será que realmente religião e política (direito, justiça, ética) estão, ou deveriam estar, separados?

Reflitam a respeito... e comentem aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fonte: HABERMAS, Jürgen. A Autoridade do Sagrado e o pano de fundo do Agir Comunicativo. In: Teoria do Agir Comunicativo 2: sobre a crítica da razão funcionalista. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

domingo, 7 de setembro de 2014

#papocabeça - É errado "discutir religiosamente"?



Hoje li num texto: "Há evangélicos que não perdem tempo em discutir religiosamente a sexualidade, o aborto, as drogas; estes evangélicos estão mais preocupados em aceitar... "

É claro, tem coisas que não dá pra gente impor ou evitar, que acontecem e que vão piorar mais ainda. Mas mesmo que não tenhamos a liberdade de interferir na liberdade do outro, nós precisamos exigir pelo menos a nossa liberdade de discordar - e manter essa postura de quem não concorda com certas coisas, mas tolera.

"Discutir religiosamente" não é perda de tempo, nunca! Só é preciso ter moderação quando vem a interferir na legislação da vida em sociedade - estado laico (nesse caso, além de perda de tempo, não tem nada a ver!) Os padrões e valores da sociedade são outros e não posso querer que todos sigam a Bíblia à força. Pelo contrário, devo dar liberdade para que as pessoas, voluntariamente, ouçam a verdade, busquem a Deus e corrijam suas vidas pessoais (a salvação é individual, e não "Essa nação é do Senhor Jesus!").

Fora isso, religião tem que ser discutida, sim, nos nossos relacionamentos com os outros (principalmente!), porque pra o cristão a fé norteia tudo, e faz parte da sua própria identidade. Se não podemos falar do que acreditamos e do que somos, pra que essa liberdade então?

Querem afirmação e aceitação das identidades hoje em dia? Pois bem! Sou cristã, preocupe-se em me aceitar como sou, e não em discutir "secularmente" minha religião/estilo de vida!


Em Cristo,

Débora Silva Costa

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em quem o cristão deve votar?

Em tempo de eleição essa é uma das dúvidas mais comuns em nossas igrejas. Isto porque, irmãos em Cristo que temem ao Senhor e que desejam fazer o melhor para o seu país, acreditam que os seus pastores receberam de Deus orientações claras quanto àqueles que deverão governar a nação. Nesta perspectiva, buscam em seus líderes orientações em quem votar. No entanto, o que talvez muitos não saibam, é que do ponto de vista ético e cristão, o pastor não possui o direito de manipular o voto de ninguém. Todavia, em virtude de desejos escusos, alguns pastores inescrupulosos, imbuídos de messianismo politico fajuto, enganam o povo, determinando ao rebanho o nome daqueles que deverão ser votados.

Caro leitor, como disse anteriormente, não creio na manipulação religiosa em nome de Deus, não acredito num messianismo onde a utopia de um mundo perfeito se constrói a partir do momento em que crentes são eleitos, nem tampouco comercializo o rebanho de Cristo, vendendo-o por interesses escusos a políticos inescrupulosos.

Diante do exposto gostaria de reproduzir aqui o DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO que foi defendido na década de 90 pela Associação Evangélica Brasileira:

I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;

V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um "despachante" de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros "trocos", ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais "acertos" impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a "recompensa" seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os "reinos deste mundo" por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de "boatos" do tipo: "O candidato tal é ateu"; ou: "O fulano vai fechar as igrejas"; ou: "O sicrano não vai dar nada para os evangélicos"; ou ainda: "O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos". É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: "o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto", é compreensível que dê um "voto de confiança" a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.


Soli Deo Gloria,

Renato Vargens


Original: QUEM FOI MESMO AQUELE QUE DEUS DISSE EM QUEM DEVEMOS VOTAR?
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