sábado, 11 de outubro de 2014

#papocabeça - O que é essa tal de secularização?


Todo cristão que se preze já deve ter ouvido este "palavrão", geralmente inserido num discurso de advertência e acompanhado de uma expressão de desaprovação: "a secularização da igreja", "a música secular", "o secularismo"... Mas, afinal, qual a origem deste conceito, e porque ele é tão mal visto no meio religioso?

A palavra secularização é oriunda do latim saeculum que significa ‘século’, ‘época’. Com o tempo, adquiriu outros significados como: ‘o mundo’, ‘a vida do mundo’ e ‘o espírito do mundo’. Mas a maneira como a igreja lida com o conceito não tem o mesmo sentido dado pelos estudiosos de fora do meio eclesiástico. Para os crentes o termo foi difundido com um sentido negativo, como algo mundano, hedonista. Já os pensadores em geral vêm a secularização apenas como um fenômeno sociológico neutro que merece ser estudado. Para entender porque secularização adquire o seu sentido pejorativo, é preciso primeiro que a gente pare de avaliá-lo sob o olhar da religião, e o observe a partir de outro ponto de vista: o da sociologia.

Os sociólogos apontam para uma evolução histórica da religião na sociedade, desde as práticas místicas e rudimentares do homem primitivo até o surgimento das atuais instituições religiosas extremamente desenvolvidas e organizadas. Para eles, a secularização é a melhor explicação para essa transformação progressiva da religião. A secularização se define como uma aproximação cada vez maior dos fenômenos religiosos com as práticas laicas, gerando uma adaptação do sagrado (religião) aos valores profanos (do mundo). Segundo o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), “a ação religiosa (...) em sua existência primordial, está orientada para este mundo.” A sua obra Sociologia da Religião traz várias características desta gradativa adaptação do sagrado ao profano/mundano. Aqui algumas delas:

1) a simbolização: passagem de uma adoração da natureza para uma crença simbólica em seres espirituais;
2) a antropomorfização: atribuição de características e competências humanas aos seres espirituais;
3) a categorização: classificação das divindades (deuses ou demônios, deuses ligados a profissões, a cidades, a fenômenos naturais, a clãs, etc.);
4) a universalização: o aparecimento das grandes religiões monoteístas, substituindo aquele panteão de divindades por um deus único e universal;
5) a abstração: concepção de ideias religiosas complexas, como um "deus transcendente", o "pecado" e a "salvação";
6) a sistematização: utilização das dos escritos religiosos como forma de preservar as revelações e tradições que até então eram transmitidas de forma oral;
7) a racionalização: desenvolvimento do pensamento filosófica na religião (teologia) e de uma doutrina religiosa organizada, lógica e coerente;
8) a institucionalização: passagem do culto doméstico para uma adoração em congregações, garantindo a continuidade da religião;
9) a hierarquização: o aparecimento das figuras do mago, do profeta e do sacerdote, entre outras funções, como formas oficiais de administrar o sagrado;
10) a burocratização: estabelecimento da instituição religiosa, com suas hierarquias, suas regras, seus cargos, sua oficialidade...

Enfim, podemos perceber através destas características que a secularização (pelo menos no início) promove não a destruição, mas a evolução da religião de um estágio mais primitivo para um nível cada vez mais avançado. Mas a secularização não atua apenas no desenvolvimento da religião: ela também é responsável pela modernização da própria sociedade. Para Weber, religião e modernidade não são opostos nem incompatíveis, pois foi a secularização da religião que contribuiu para o surgimento da modernidade. Quando há uma transformação de pensamento religioso ocorre também uma alteração nas práticas seculares. Deste modo, a secularização é um fenômeno que nasce dentro do pensamento religioso, mas que atua também fora dele: no desenvolvimento das cosmovisões (visões de mundo), das instituições sociais, do direito e da moral, da racionalidade da ciência, ou mesmo de um novo sistema econômico.


Mas, é claro, não há dúvida de que, com a secularização, a religião perdeu cada vez mais sua legitimidade nos tempos modernos. Se, por um lado, a religião é cada vez mais voltada para este mundo, por outro lado, o mundo está cada vez mais afastado da religião. Ou seja, a religião desempenhou papel decisivo para a o surgimento da modernidade, mas depois este mesmo progresso tirou o lugar de destaque da religião na sociedade. É o que Weber chama de “desencantamento do mundo”, quando a racionalidade moderna põe em xeque as visões religiosas e místicas tradicionais.

Com o desenvolvimento da modernidade, a separação sagrado/profano, religioso/secular, divino/mundano foi ficando cada vez mais forte. A religião ficou restrita ao espaço pessoal e privado, enquanto que a política ocuparia o centro da vida social, pública. A secularização originou um luta do campo religioso contra campos concorrentes que exercem controle (mídia, política, escola, entretenimento, ciência, cultura, etc.). Na atual sociedade secular, ninguém pauta sua vida somente pela religião, nenhuma explicação meramente religiosa é levada a sério, e nada mais é exclusivamente sagrado. É daí que vem esse sentido negativo que hoje acompanha a palavra secularização.

Três fenômenos são característicos do fim do monopólio da religião nas sociedades secularizadas. O primeiro é a diversidade religiosa, quando não existe mais uma religião absoluta, capaz de impor às demais religiões e a toda a sociedade seus valores. Funciona a lógica de mercado econômico, em que as religiões são oferecidas como produtos e competem entre si para cativar a clientela. Também há a tendência ao relativismo religioso, demarcando a religião num domínio particular, íntimo, emocional e subjetivo, considerando-a incapaz de interferir nas decisões em sociedade. E, por fim, a liberdade religiosa, que confere uma liberdade de escolha ao indivíduo, além da liberdade institucional de formação de novos grupos e movimentos.


“A secularização do mundo moderno representa, portanto, a afirmação da autonomia criadora do homem, o predomínio da razão antropocêntrica.” (ARAÚJO)

Antes, no entanto, de declararmos aqui a derrota da religião no mundo secular, é preciso saber que essa oposição radical entre o religião/fé e modernidade/razão é algo totalmente discutível. A secularização provoca reações diversas: de um lado estão os que creem no fim do sagrado nesta cultura radicalmente secularizada, e de outro os que acreditam na revanche da religião num mundo totalmente esgotado pela falta de fé. Estes movimentos com visões opostas unem-se em uma só constatação: ao que tudo indica, religião (encantamento) e secularização (desencantamento) não são excludentes. Isso nos leva a algumas questões:

* É realmente possível que a religião seja totalmente pura, sagrada e separada do mundo, tendo em vista a força da secularização?
* Por outro lado, até que ponto a religião pode adaptar-se ao mundo sem perder sua força, primazia e essência?
* Como a religião tem sobrevivido no mundo moderno e secularizado? Ela permanece intacta ou tem sofrido alguma transformação?

Reflita a respeito... e deixe um comentário aqui!


Em Cristo,

Débora Silva Costa.


Fontes: 

ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. Religião e Modernidade em Habermas. São Paulo, Edições Loyola. 1996.

FIGUEREDO FILHO, Valdemar. Entre o Palanque e o Púlpito: Mídia, Religião e Política. São. Paulo: Annablume, 2005.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia e Poder Simbólico. São Paulo: Paulus, 2005.

WEBER, Max. Sociologia da Religião. In: Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva, v. 1. Brasília: UNB, 2000.

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